29 de novembro de 2006

Little Miss Sunshine: pérola indie

Há filmes assim...com uma ternura murmurante, um tom tão suave que nos deixa impreparados para a sagacidade crítica que o sustenta. Little Miss Sunshine, pérola da cena "indie" americana, sátira desavergonhada à maquina homogeneizadora a que se convencionou chamar "american way of life", é uma daquelas delícias cinematográficas que conquista a audiência por algo mais do que um texto magnífico, uma fotografia sublime ou um conjunto de performances excepcionais. Não, é algo de muito mais subreptício e subliminar. Talvez seja o tom levemente sarcástico (próprio do "looser", como é referido numa hilariante troca de farpas entre Greg Kinnear e Steve Carell (o novo Bill Murray, mas com um subtexto que o agregará, eternamente, ao Daily Show)), sempre adocicado pela ternura com que os realizadores e o argumentista evocam a peculiaridade de cada personagem. Sempre com sensibilidade, nunca desprezando a inteligência da audiência.
...Um filme que se refere a Marcel Proust e a Nietzsche apelará sempre ao meu snobismo de alcova. Mais ainda quando essa mesma película inclui a Toni Colette, uma das melhores actrizes da actualidade.
Só não percebo uma coisa: por que razão é que os críticos afirmam que os núcleos emocionais do filme são as personagens de Toni Colette e Alan Arkin? Para mim, é mais que evidente a centralidade da VW Pão-de-Forma Amarela, decrépita e familiar. É uma "looser" idiossincrática, em permanente dissonância. Num filme em que a individualidade é glorificada, que outro veículo poderia ter sido usado?

19 de novembro de 2006

Porque sim, porque é giro e tem graça.

The Book of Cool. Decorem este nome. É a coisa mais engraçada e interessante dos últimos tempos. Enquanto alguém fica com o sistema nervoso esfrangalhado, por causa de uma Assembleia de Representantes, há quem veja mais longe. Há quem veja a qualidade estranha de "coolness" nas maiores bizarrias. Brincar com uma caneta deixou de ser obsessivo-compulsivo. Agora, é "groovy". Ele é truques de barman (que resultam, para variar), ele é freestyle asiático, ele é um chorrilho de pequenas maravilhas da destreza humana.
É este mundo que gosto de esboçar. Um mundo em "technicolor", sempiternamente cómico e adorável.

...Já agora, dêem-me o Book of Cool pelo Natal. Agradecia.

Futurologia com palavras caras

Ainda há quem acredite na possibilidade de salvação do planeta. E não é o Al Gore. Não obstante quaisquer verdades inconvenientes, o BoingBoing diz que a New Scientist agarrou em dezenas de cientistas, deu-lhes uma pancada na medula oblongata (aprendi esta a ver o Rush Hour) e esses inefáveis guardiães do conhecimento agarraram numa bola de cristal (feita de matéria negra, sub-quarks e outras aberrações da física), efectuaram uma série de computações quânticas e, cá para fora, saíram previsões para os próximos 50 anos de desenvolvimento científico. Uns falam da Teoria de Tudo, outros do Genoma Humano...enfim, uma imensidão de brincadeiras.

18 de novembro de 2006

Às vezes, é o tempo que nos engana...

i carry your heart with me (i carry it in
my heart) i am never without it(anywhere
i go you go,my dear; and whatever is done
by only me is your doing,my darling)
i fear
no fate (for you are my fate,my sweet)
i want no world (for beautiful you are my world,my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you

here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life; which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart

i carry your heart(i carry it in my heart)

e.e. cummings

Um, dois, três...e puf, fez-se o chocapic

Acabei de ler O Monge que Vendeu o seu Ferrari, da autoria de Robin Sharma, (pertencente ao clube de Osho, Deepak Chopra e Sri Chinmoy),reeditado pela Sábado Como é costume, em livros de auto-ajuda, soube-me a pouco.
Há que dizê-lo: não sou o maior fã deste tipo de literatura. Mas também não pertenço ao clube dos que desprezam, recalcitram contra ou invectivam estes pequenos e esquecíveis opúsculos.
Divirto-me, simplesmente, a desconstruir, e reconstruir, a amálgama de filosofia asiática, pós-modernidade e cultura popular...ou pop-culture, como agora se diz...que compõe a maior parte da literatura apelidada de "auto-ajuda".
E continuo a ficar surpreendido. O que levará estes autores a encontrar um sentido tão claro, discernível e evidente para o mundo que a única pergunta, também clara e evidente, que me apraz fazer, é esta: será a Humanidade tão inana e frustre, na sua imensa história, que ninguém se lembrou de tão iluminadas verdades? É bem verdade que Galileu, Newton e Darwin andavam ocupados com questão algo mais imperscrutáveis e de efeito menos evidente...mas, ainda assim, é um enigma. Tenho, portanto, uma teoria dicotómica: ou cada autor auto-iluminado, renascido, "yogizado" e orientalizado procura atestar a completa insuficiência intelectual da Humanidade ou, de facto, a mesma Humanidade sofre de uma depressão colectiva, que a estrutura editorial global procura extirpar.
Um amigo dizia-me, há uns dias, a respeito do "Monge": "O que me faz confusão é ele afirmar que se fizeres isto, isto e mais isto, serás feliz". Não podia estar mais de acordo. Algo que se nota, trate-se de um registo ficcional ou ensaístico, é a total falta de vivacidade do mundo em que se inscrevem os conceitos expostos e insonsamente papagueados pela maioria destes autores. Há uns séculos, uns quantos sujeitos, esotéricos e lun
lunáticos, andavam à procura da Pedra Filosofal. Agora, muitos gurus procuram, numa ânsia universalista altamente suspeita, revelar o seu segredo para uma vida felicíssima e, só por acaso, homogeneizadíssima. Mas a cultura de massas é assim mesmo...um movimento impassível em direcção à Disneyland. A nós, que ficamos no insterstício da cultura popular e erudita, cabe o papel de rir, sem escarnecer, de todo este espectáculo. E, de soslaio, ir dando uma olhadela nos manuais de bem-viver, bem-sonhar, bem-agir e bem-pensar. Há quem já tenha parodiado, de forma açucarada e bem-intencionada, esta tendência. Há quem procure discernir razões muito profundas para esta necessidade de conforto. Eu, se estivesse com atenção, diria que o "renascimento mediático" das religiões não é apenas televisivo ou digital; para um ocidental, experimentar um satori não decorre de vergastadas oferecidas por um enfurecido mestre zen, obcecado pela iluminação repentina dos seus discípulos. Estar sentado num sofá, enquanto se lê, não um Taizen Deshimaru, mas um Robin Sharma, é mais confortável. Sentem-se desconfortáveis com esta perversão do diálogo Interfaith? Bem-vindos ao século XXI.

12 de novembro de 2006

Vincent

Há peças que nos transportam para qualquer lado especial. O meu amigo Vincent é um desses magos dotados de sabedoria tão arcana, tão inexprimível, que se convencionou nomear de "talento". É fácil esquecer que o "talento" é um fardo pesado, comporta uma aprendizagem que nunca termina e que, muitas vezes, acaba por consumir aqueles que o têm. Como consumiu o Vincent, o Basquiat, o Kerouac e tantos outros. Talvez fosse esse o seu destino.

7 de novembro de 2006

Antropologia do Zé Povinho

Querem convencer-me de que Portugal não é um país que faz rir? Descontando, é claro, as macacadas parlamentares, ainda há muito país para conhecer.
Pela estrada fora, ainda se encontra muita gente castiça, gente que nos faz nascer um sorriso, não de escárnio, nem de ironia, mas um sorriso leve, como que a segredar uma cumplicidade entre portugueses, tantas vezes de costas voltadas, mas sempre com vontade de brandir o copo e trautear uma cançoneta tradicional, enquanto se emborca só mais uma mini e se vê mais um jogo da bola.
Por isso, presto a minha homenagem à Liga dos Últimos. Um programa de antropologia, que tem, como objectos, o Homo Sapiens Futebolicus e o Doutor Bitaites, esse repositório oracular eminentemente português. Meia hora de deleite comédico, sempre afectuoso. Porque o Artista do Cavez é, assim mesmo, um artista da graçola.
Melhor que tudo isso: vejam os Highlights 2005 (parte 1 e parte 2). Entradas de fazer inveja ao Petit, um treinador que não consegue fazer-se entender aos jogadores, alguém que foi "promovido de paralelo a calhau" (pago um jantar a quem souber decifrar esta...), um novo nome para uma bebida, o deserto do Ceará que fica ali para os lados de França, um "q" de cedilha...enfim, pérolas. E jornalistas com um sentido de humor infindável.

Portugal português. E é assim que eu gosto dele.

6 de novembro de 2006

Certidão de Óbito

O Maio de 68 morreu.

Já não há Sorbonne sitiada. Agora, luta-se contra o CPE. Mas, em França, os ânimos andam sempre exaltados. Mesmo que o Muro tenha caído, as tendências Xiaopingianas tenham vencido, e a China seja, agora, um dragão industrial (que ainda funciona a carvão), eles continuam, todos revoltados e de punho no ar, a exigir aquilo que lhes apraz. Tanto trabalho...para quê? Mais vale ficar sentado numa certa esplanada de Lisboa. Pois claro. É melhor que sejam as vanguardas a determinar o pensamento de quem devia...bem....pensar. Ou, então, talvez seja preferível aderir a movimentos psitacistas e mentecaptos. Sempre é melhor que tomar consciência.
Sim, o Maio de 68 morreu. Vi-o hoje, com os meus olhos. Vi-o, ao enfrentar a apatia reinante numa certa Faculdade, a qual, ao que parece, cultiva o livre-pensamento e a discussão intelectual. Percebi-o, ao ter de esgrimir argumentos com uma cidadã, despreocupada e indolente, cuja única justificação para a apatia é, pelos vistos, um niilismo sensaborão, daqueles que se aprendem a ver os Morangos com Açúcar. O Mundo é, de facto, um Teatro.
E queres saber, caro leitor, a razão pela qual desci ao ponto de esgrimir argumentos com alguém cujo alcance intelectual não lhe deveria permitir a entrada na Universidade? Fi-lo para defender os direitos dela. Fi-lo porque, numa certa Faculdade, bastião incontestado da esquerda intelectual e bem-falante, o laxismo deixou de ser objecto teórico e passou a ser estado de espírito.
Porque ter de andar atrás dos meninos universitários, pedindo-lhes, encarecidamente, que participem na gestão da sua Faculdade, já que a sua participação é a última barreira que impede a comercialização da educação, e ainda levar com caras impúberes, mas já habilitadas à contorção muscular que dá lugar a um trejeito de enfado, não é, de todo, a minha noção de um bom dia. Só faltava andar a distribuir flyers e a colar cartazes com a frase "FAÇAM-ME UM INCOMENSURÁVEL FAVOR: DEFENDAM OS VOSSOS DIREITOS". Haja capacidade de encaixe.

É que, ao que parece, participar no Órgão Máximo de Gestão da Faculdade, onde estudam, é uma actividade de pouco prestígio e muito trabalho.
...Três reuniões por ano. Ordens de trabalhos com dois pontos. Uma frequência, por parte dos alunos, que rondou, no ano transacto, 10% dos representantes.
"Dá tanto trabalho... Participar no processo democrático dá imenso trabalho, é uma maçada tão chata, tão pouco Geração Y. Quase nem dá tempo de ir comprar os óculos aviador da RayBan. Imagina só perder os Morangos com Açúcar...Como é que decorávamos os tiques linguísticos que nos dão uma aura de Ignorantes-Cool? Ah não. Não pode ser. Deixamos essa coisa de participação cívica e consciência individual para ti, humilde e mal vestido plebeu". Juro que os olhos daquela cantina, daquele bar e daquela esplanada debitaram estas mesmas palavras, enquanto me ouviam falar de uma certa Assembleia de Representantes de uma certa Faculdade.
Enquanto estudante de História (dois pecados mortais numa única palavra - voltarei a este tema), não deveria, nunca, traçar paralelos, mas parece que, nesta sociedade mediática, só com alarmismos esganiçados é que lá vamos: lembram-se da Belle Époque? Melhor, lembram-se dos Roaring 20's? Pois. Viu-se no que deu. (Claro que reconheço a idiocia deste paralelo (instrumento analítico que, em História, é perfeitamente absurdo), mas mesmo assim, é engraçado)

"Pouvoir à l'Imagination", bradavam os revoltados de há trinta e oito anos. Hoje, alguns são como o Cohn-Bendit, institucionalizados; outros são apenas frustrados reaccionários ou revolucionários, todos muito radicais e muito pós-modernos. Mas há pior do que ser institucionalizado ou frustrado. Muito pior que isso é ser apático. A ignorância não traz felicidade; consagra, apenas, a ilusão do escape. E, mesmo que se convoquem manifestações, boicotes e acções de protesto, há gente que nunca chegará a ter consciência.
Um slogan para vocês, carneiros indigentes: Se pensas por ti, pensas mal. Em vez de pensares, tens de ser igual. (E sim, trata-se de uma referência a um dichote de mau gosto; mas o mau gosto, às vezes, surte efeito) A quê? À manada de amibas cerebral e socialmente atrofiadas que, todos os anos, saem, às pazadas, das Universidades portuguesas, esperando um emprego e uma vida onde a iniquidade dá lucro e a vulgaridade é a bitola do sucesso. Claro que o mundo, essa meta-realidade (para Jean Baudrillard, ou a minha interpretação dele), acaba por dar-lhes uma desilusão imensa; para bem de nós, que escolhemos o desconforto da consciência e da empatia, ainda vale a pena saber que o mundo é multitexturado, multicolor e multitudo.
Elitização do Ensino Universitário? Cá para mim, é Estupidificação do Ensino Universitário. Quantos mais burros, analfabetos funcionais - estarrece-me, profundamente, a iliteracia de alunos inscritos em Letras e Ciências Sociais - e inconscientes formos, mais tenrinha a nossa carne se torna. É que, sabem, o cérebro que pensa é duro de roer. O que não pensa é de digestão fácil.

Ao contrário do que pode parecer, não estou revoltado. Longe disso. Creio, porque conheço pessoas de muitíssimo valor, que querem saber, que procuram algo mais que um canudo e uma vidinha tranquila e apagada, que a minha Faculdade é, de facto, um bastião da pluralidade e do livre-pensamento. Benditos sejam. Aos outros: até podia dizer-vos onde fica a fila para a máquina de encher chouriços, mas vocês já lá estão. E não tenho pena nenhuma.

5 de novembro de 2006

Richard Dawkins vs Evangélico Alucinado

Longe de concordar com todas as posições de Richard Dawkins, nomeadamente acerca da fenomenologia religiosa, há qualquer coisa de muito, muito estranho em todo o fenómeno da religião mediatizada, verifique-se ele no Brasil ou nos Estados Unidos. Aqui está uma prova. Para ver e reflectir acerca dos limites da loucura, controlada ou iludida.

4 de novembro de 2006

Pergunta-Resposta-Infinitude

Onde está a resposta?

Sim. Onde está a resposta? Não é na música do Marvin Gaye. Nem nos livros de auto-ajuda. Portanto, onde é que está? Estará naqueles olhares que se trocam, cúmplices, a caminho de uma cadeira de uma esplanada de um café obscuro, onde não queremos ficar...mas tivemos medo, porque a confusão, a angústia metem medo, e nós não podemos senti-lo nas veias, esse pobre e desastrado proscrito. O nosso destino bifurcou-se naquele olhar: uma dimensão nova nasceu, em que nem tudo foi estéril. A confusão e a dignidade deixaram de fazer sentido a sós, apenas em conjunto. Mas...espera. É num olhar, num tímido e opaco olhar, que está a resposta? Mas tu reconheces, sequer, a existência de uma pergunta? Tens apenas a ilusão da certeza, um controlo ténue sobre a tua vida, e crês que um olhar basta?
Bastaria. Se escolhesses não ceder ao encanto de me manter, em suspenso, à espera de algo que, sabemo-lo perfeitamente, não acontecerá, bastaria. Mas gostamos de jogar, e é o jogo que nos perderá. Seja poker, blackjack, roleta russa ou um genérico e desinteressante jogo da vida. Naquele olhar, naquele dia, foram duas vidas bifurcadas em sete. Como? Um e um não dá sete? Que sabes tu de matemática, que reconheces tu no rigor aritmético, para te iludires na segurança dos números? Cederei à tua provocação. Duas vidas divididas dão, pelo menos, seis: são os destinos obscuros que traçámos, a partir daquele olhar que terminou num café forasteiro. São milhões, as vidas que desprezámos. Mas prefiro manter as coisas simples, para te dar uma bofetada de luva branca. A simplicidade lima as arestas de tudo. Mas falta algo, pensas tu. Falta o degrau final. Falta o passo que me levou ao sete. Um e um sete. É essa a resposta? Não. Demasiado fácil...demasiado simples para quem voga num mar de confusão, tão denso e respeitável que já te convenceu de que não é um mar, mas um homem, em quem vais ficar imersa pela eternidade fora.
Já te afogaste há muito. E é essa a razão pela qual não percebes porque é que um mais um dá nove. Duas vidas que são uma sopa de estrelas a apagar-se. Cada olhar desviado é um destino que fica ali, prostrado e moribundo.
Mas só perceberás o meu subterfúgio quando já for tarde. Uma vida somada a outra nunca fará duas, nem três, nem sete, nem mesmo uma potência incomensurável. Uma vida somada a outra cria outro Universo, dá-se, ali mesmo, um Big Bang. O mundo pára e a cadeia de acontecimentos que nos levou a cafés separados, com companhias separadas e olhares separados, deixa, pura e simplesmente, de existir. É um Universo, lembras-te? Mas é um Universo onde só há espaço para duas galáxias, que dançam até brilhar. Até haver espaço para o medo, para a confusão e para todas as vidas que se viveram, perderam, sonharam e aconteceram, no espaço subtil daquele olhar que ambos recusámos. Naquele instante, naquele preciso momento, em que uma vida somada a outra se tornou sete e depois um infinito. Onde está a resposta? Se pudesses parar o tempo, pausar aquele elo que ligou, ligeiramente, os teus olhos aos meus, e se lhe pudesses ver a cor, sentir a textura, aspirar o aroma, saboreá-lo, conhecerias a resposta. E a pergunta. E tudo.

29 de outubro de 2006

Web 2.0 I

A era da partilha começou. Eu sei, eu sei: trata-se de uma hipérbole, de um optimismo exacerbado, de uma fábula. Mas os factos são claros. O ataque cerrado e despudorado dos cães de caça das editoras, de uma desonestidade intelectual e cívica que roça os limites da urbanidade, acabou por não surtir o efeito esperado. Pelo contrário: no seu furor repressivo, os arautos da cultura-consumo demonstram, de forma inequívoca, que existem alternativas. Digo-o frontalmente, porque um blog corporiza esse movimento ameaçador e hediondo (para os defensores da formatação sociocultural, pelo menos): a Web 2.0.
Antes de reflectir um pouco acerca deste movimento inovador e renovador, preciso de esclarecer um ponto. A designação "2.0" não é, na minha opinião, estritamente correcta, se a entendermos de forma quantitativa. A Web não se tornou "2.0" pelo aumento do número de websites, nem pelo aumeno exponencial da largura de banda. Não é esse o objectivo; trata-se, pelo contrário, de exprimir uma mudança na interacção dos agentes virtuais, uma integração mais completa e consolidada de todos os utilizadores na rede. Parece-me que "Web 2.0" expressa um processo de mutação, em que a enfatização deixa de estar centrada na "transmissão" unilateral e "disponibilização" da informação, e passa a emanar da "partilha", ou seja, da ascensão do indivíduo enquanto sujeito criativo e criador. Inspirador, não é? Ameaçador também.
Estou longe de conhecer todas as ramificações deste movimento, cujas consequências e significância ainda não conhecemos em plenitude; contudo, a relevância do YouTube, da WikiPedia e do Blogger já pertencem ao senso comum. Em Portugal, alguns serviços de e para a comunidade, como o Digger e o Flickr, ainda não são muito conhecidos. Todos eles assentam em duas premissas: a partilha livre da informação/produção artística e cultural e uma forma de sociabilidade altamente integrada. Estamos muito longe do estereotípico utilizador da Net, passivo e vergado ao jargão informático. Na maior parte das vezes, os utilizadores "2.0" são activos, produzem conhecimento (nem sempre fiável, é certo) a alta velocidade e, na característica mais importante, abrem perspectivas, criam canais de discussão. Formam, em suma, uma "inteligência colectiva". O MySpace e o Hi5 são duas pontes, ainda a meio caminho entre a Web do mIRC, do ICQ e a Web do Flickr. O indivíduo produz e partilha cultura, ou seja, torna-se agente cultural nessa condição, e tem, pela primeira vez na história da cultura de massas, instrumentos que lhe permitem expressar-se. Esta quebra de condicionantes é, também, o fim de um tabu: os movimentos grass-roots já não podem ser eficazmente filtrados pelos media. Ou será que podem? Essa questão permanecerá em escrutínio, creio-o, durante largos anos. "Pão e circo", como alguém disse, continua a ser um dichote muito astuto.
Todo este palavreado acerca de "cultura", "agente cultural", esbarra num obstáculo...dois, aliás. O primeiro prende-se com o ordenamento jurídico internacional. Os direitos de autor, essa expressão tão firmemente aviltada pelos ditos cães-de-caça das editoras, viram esta trapalhada toda do avesso. Até ao advento da Creative Commons. O segundo é, simplesmente, o facto de que, se um grande conjunto de indivíduos se recusar a pactuar com a economicização da cultura, haverá muita gente a vociferar impropérios e a apelidar esses ditos "não-cooperantes" (que, ao contrário de hippies idiotas, não advogam nenhum tipo de "cultura alternativa", outro nome para "contra-cultura") de "anarcas", "terroristas intelectuais", "piratas" e outras nomenclaturas que não parecem estranhas a ninguém que pense nestas coisas. Os media tradicionais, pois claro. E toda a gente que lucra com o monopólio da informação pelos jornais, televisões, conglomerados (alguém conhece dois sujeitos chamados Rupert Murdoch e Ted Turner?) e opinion-makers (Michael Moore e associados: a simpatia política é absolutamente secundária). Qual a resposta a este domínio implacável? A Web 2.0, na minha opinião. Websites como o OpenDemocracy e o WorldChanging. Atenção: ninguém pode afirmar, na posse de todas as suas faculdades mentais, que se opõe à existência de jornais, revistas, televisões e todas as formas de media tradicional. Mas esse monopólio tem de acabar, e parece que isso está em vias de suceder.

5 de fevereiro de 2006

Globalização desglobalizada I

Aconteceu. A globalização começou, finalmente, a ricochetear. A publicação de vários cartoons difamatórios da figura de Muhammad, profeta de Allah, causou uma hecatombe moralista, um retorno momentâneo à pureza original do Islão, à proibição canónica de representar o Profeta. Podia ter sido nos Estados Unidos, essa superpotência com 40 milhões de pobres. Mas foi na Dinamarca, um dos países com maior Índice de Desenvolvimento Humano da Europa e do mundo. Foi na Escandinávia, em que as minorias estão razoavelmente integradas. Como pequeno factóide, até há um clube semita na Suécia.
Mas o mundo islâmico não se compadece com essas atenuantes. É, lembremo-lo, um mundo em decomposição acelerada, em que a globalização funciona como factor disjuntor e propulsor de fenómenos radicais, integristas, [inserir panóplia de clichés aplicados ao mundo islâmico]. Gaza é um microcosmos demonstrativo desse efeito pernicioso do multiculturalismo: transmitida, diariamente, ao mundo, Gaza já não é uma cidade. É um ícone, tal como Muhammad.
Pois é: vivemos no pós-modernismo, esse chavão que preconiza o relativismo absoluto, a aceitação de todas as culturas mundiais, a inexistência de planos supra-naturais. Pois. No mundo académico, esse palavreado resulta. Nas ruas de Beirute, Damasco, Bagdad, Teerão, Islamabad ou Muscat, nada disso faz sentido: continua a ser o "Nós" muçulmano, injustiçado e humilhado desde 1922, contra o "Eles" ocidental, essa panóplia de escumalha que não hesita em profanar a memória do Profeta. Sabem aquilo que é irónico? Aqueles que pisam a bandeira da Dinamarca são aqueles que mais desrespeitam os preceitos corânicos: são aqueles que entendem a jihad como um dos "cinco pilares" fundamentais do Islão, em vez de a considerarem, como os admiráveis sufis, uma luta interior. Mártires, pois sim. Constituem o equivalente islâmico das velhas beatas que corporizavam o cristianismo de aldeia em Portugal, há 50 anos.
Não deixo, ainda assim, de sentir uma repulsa extrema pelo conteúdo de alguns dos ditos cartoons. Para além de não primarem pela qualidade pictórica ou simbólica, são icónicos de um crescente desrespeito e subversão do multiculturalismo, com a justaposição de ideais perfeitamente contemporâneos, decorrentes da mutação história sofrida pelo Islão, a uma figura com quase 1500 anos de história. Era desnecessário e basta olhar para um nosso conterrâneo, Rafael Bordalo Pinheiro, para compreender que o humor pode ser controverso, mas não boçal.

24 de janeiro de 2006

X marks the spot


Acabo de ver um dos grandes filmes dos anos 90 e pergunto-me: terá a nossa estrutura intelectual acompanhado o desenvolvimento tecnológico? Minto. A minha pergunta, de facto, é: se Malcolm Little, vulgarmente conhecido por Malcolm X, fosse vivo, qual seria a sua opinião acerca das relações inter-raciais?
Há várias razões, nem todas de ordem pessoal, que me levam a escolher Malcolm X, em detrimento de Martin Luther King Jr. ou Mohandas Karamchad "Mahatma" Gandhi. É uma figura famosa, mas pouco conhecida e consensual: quase todos conhecem o seu nome, mas nem todos viram o magnífico filme de Spike Lee. Quase todos estão familiarizados com a agressividade do X, mas poucos entendem a significância da incógnita matemática, tornada declaração de consciência histórica, por parte do homem negro. Do Homem, aliás: porque, como começa a ser costumeiro (reconheço-o em mim), o nome precede o conteúdo, nesta era de listagens, história-evento-data e enumeração de factóides=cultura. Malcolm X, pela sua importância no Civil Rights Movement, pela sua posição beligerante e activista (palavra que começa a cair em desuso), merece ser lembrado. Já não pela sua doutrina, mas pela sua atitude e dedicação.
"O nosso príncipe - o nosso Príncipe negro e brilhante". Foram estas palavras emocionadas que a voz inconfundível de Ossie Davis, colosso da negritude em Hollywood, imortalizaram, na elegia a Malcolm X, aquando do seu funeral, há 41 anos. Quarenta e um anos.
E volto a cismar: se Malcolm estivesse vivo, qual seria a sua posição? Que diria? Talvez voltasse a unir-se à Nação do Islão, essa recrudescência identitária que, ainda hoje, apregoa a Supremacia Negra. Sim, talvez voltasse a falar do "mal intrínseco" de toda a raça caucasiana e preconizasse o uso de armas para defesa pessoal dos negros americanos, afro-americanos: o número de associações neo-nazis e pró-arianas continua a ser preocupante. Talvez, com o seu carisma incontestável, intenso, febril, voltasse a pregar a violncia.
Mas acho que não. Acredito que, nesta época de incompreensão, nestes tempos de partidarização sibilina e sibilante, a sua voz ergueria uma barreira contra o racismo; a sua figura circunspecta e altiva seria um farol, um sinal de que nenhum ser humano é mais fraco porque muda de opinião.Pelo contrário: Malcolm X, pelo seu exemplo (mais do que pelas suas palavras), ensina-nos o valor de um espírito vigoroso, inquieto, missionário. Teve de descobrir, em Meca, que os seres humanos não têm cor, têm cores; que o credo de Muhammad não se limita a uma tez; que a bondade e a dignidade não são apanágio de uma raça. É esse Malcolm X, peregrino redimido, que admiro. Porque teve a coragem de admitir o erro e porque, numa época em que a crispação subia de tom (os movimentos supremacistas negros começavam a ebulir), ousou ser igualitário.
Na verdade, talvez devêssemos usar todos um X, como apelido. Nesta era de globalizações, estamos, subrepticia e lentamente, a desenraizar-nos, a perder referências e referenciais. Por isso mesmo, vale a pena lembrar aqueles cuja vibração perdura, como um eco dos valores que defenderam. Malcolm X é um desses mitos.

22 de janeiro de 2006

É a água, estúpido!

Os combustíveis voltaram a subir. Mais um capítulo da saga politizada que pretende esvaziar os bolsos dos contribuintes, segundo alguns. Comecem, primeiro, por desvelar a vergonha que sucede na Rua do Ouro, 27. A sede do Banco de Portugal, onde um determinado concidadão recebe um salário anual que ascende aos trezentos mil euros anuais. Falo, é claro, do governador do BP, Vítor Constâncio. Sim, aquele sujeito munido de óculos que, ciclicamente, surge à frente de uma parede decorada com azulejos e vitupera o funcionalismo público, acusando-o de inviabilizar o bom funcionamento do Estado Português. Mas tergiverso. Aquilo que me traz a estas paragens é algo de muito maior magnitude. É a cegueira selectiva do povo português, orgulhosamente ocidental.
Antes de mais, há que dizê-lo: sei bem que o aumento do imposto sobre os combustíveis nada teve de estrutural; foi um imperativo imposto pelo Orçamento de Estado, esse fantasma que paira, todos os anos, como uma Morte indecisa sobre as nossas cabeças. Gostaria, contudo, de relacionar esta decisão governamental com um fenómeno da longa duração, que, há uns meses, aflorou ao nosso cérebro colectivo: a escassez de água. Ou melhor, a ideia da sua escassez.
Queixam-se os consumidores, os prestadores de serviços; os taxistas, os universitários, os varredores, os maquinistas, os camionistas, os analistas, até os chupistas. Os combustíveis NÃO podem subir; é um crime lesa-majestade (sendo a majestade a pulsão consumista). Talvez este artigo conscencialize alguns: Portugal exagera no consumo de combustíveis e na emissão de poluentes; o nosso país não respeito o Protocolo de Quioto, que ratificou, e, por isso, pode vir a sofrer sanções significativas e prejudiciais à propalada recuperação da economia.
Temos carros a mais, amigos. Temos carros a mais, andamos de autocarro a menos, a nossa economia é hiperdependente das energias não-renováveis e todos nós conhecemos aqueles mapas que, ano após ano, são apresentados, pela Visão, como "Portugal daqui a 50 anos - um deserto invadido pelo mar". Urge mudar, e não apenas por nós próprios.
Porque, quando a Península Ibérica enfrentar décadas de seca extrema, Espanha não vai ter complacências, e incorreremos no mesmo problema que afecta o Próximo-Oriente: o combate pela água. E isto não é uma diatribe esquerdista e alarmista: é uma realidade perfeitamente concebível. Se não se tomarem medidas equilibradas e sustentáveis, a Europa meridional vai sofrer o mesmo destino que os vizinhos magrebinos e árabes: seca extrema, escassez de água e beligerância acentuada. E, como de costume, os nosso vizinhos do eixo Paris-Berlim-Londres vão encolher os ombros e enfiar-se em Estrasburgo, tentando decidir. Ou decidir o que decidir.
Por isso, concordo perfeitamente com o aumento dos combustíveis. O alarmismo parte, na verdade, de quem equipara a situação actual a 1973; a falta de horizontes é a de quem pretende utilizar a energia hidro-eléctrica para dar um presente envenenado à população do Baixo Sabor (um dos últimos rios não apresados da Europa e, portanto, de um valor ambiental inestimável). É triste que alguns sujeitos estejam disfarçados de humanistas, enquanto autorizam, intelectualmente, a destruição do nosso património ambiental. Que se aumente o preço: isso funcionará como dissuasor do consumo excessivo, obrigará as pessoas a parar para pensar e, talvez, a ler uns quantos artigos ou, até, livros que explicam a definição de desenvolvimento sustentável.
A água é um direito humano. É, igualmente, o único direito ambiental que não está explicitamente consagrado (ver aqui, p. 28) e que, por isso mesmo, é mais frágil e necessitado de protecção activa. Menos de 10% das reservas aquíferas mundiais são potáveis. Apenas uma fracção da população mundial tem acesso à quantidade diária de água prescrita pela OMS; nessa fracção, poucas pessoas, fora do mundo ocidental, têm acesso a água de boa qualidade. Os ecossistemas oceânicos, lagunares e fluviais são essenciais para a sustentação do planeta e muito sensíveis ao aumento da poluição, tanto hídrica como atmosférica. O consumo de combustíveis e subsequente emissão de poluentes (em que os automóveis privados têm um quinhão considerável) é o contribuinte acusável. Cada português tem de se mentalizar deste contexto, desta fragilidade ecológica e de parar com o cliché de que os ambientalistas só querem travar as liberdades individuais e o progresso (seja lá o que isso fôr, na pós-modernidade). Talvez, desse modo, não vão para a TSF vociferar. Talvez devam guardar a energia para guardar as últimas reservas de água e lençóis freáticos que, mais década, menos década, voltarão a ser bens de incomensurável valor. Na verdade, estamos mais dependentes da Natureza que nunca.