Eu sou um dos milhares de utentes diários dos transportes colectivos lisboetas. E, todos os dias, enfrento caras desconhecidas, afectos anónimos, raivas surdas. Todos os dias oiço os silêncios de quem trabalha. Vejo, todos os dias, guerrilhas de egos. Quotidianamente, tomo partidos, julgo, conjugo o verbo "odiar" demasiadas vezes e o verbo "amar" com decrescente convicção.
Eu também baixo a voz, quando exprimo algo de que me envergonho. Também sou um daqueles profetas da diversidade que, ao falar dos "pretos" e dos "ciganos", aligeira o tom, tentando camuflar o preconceito na cacofonia urbana. E olho de soslaio, quando um ser humano, de tez menos clara que a minha, passa por perto, ilustrando o tema da conversa, tantas vezes repetida: vivemos em lei marcial. É uma guerra de raças, cores, etnias, gerações, estratos sociais. É uma tempestade de preconceitos disfarçados. É um "melting pot" hipócrita, um mundo em que os brancos vestem FUBU e os pretos vestem Timberland, procurando uma identidade que se perdeu.
Sim. Eu sou racista. Quando vejo um grupo de gente que, racialmente, me é estranha, mudo para o outro lado da rua, sem que nada de racional mo indique. Quando um preto atravessa a passadeira no vermelho, é devido ao "excesso de melatonina na epiderme". Um chinês que trabalha laboriosamente? Anda a lavar dinheiro para as tríades.
Eles são os escarumbas, os ciganos, os monhés, os chinocas, os judeus. Querem limpar os guetos suburbanos? Comecem por eliminar os guetos mentais em que fomos colocando todos os seres humanos não euro-caucasianos.
Sinto-me incomodado pela presença maioritária de africanos, no autocarro que me transporta, todas as manhãs, de volta à minha universidade. Só os ciganos é que roubam, extorquem, chantageiam. Sim: eu sou um produto acabado do racismo polido e politicamente correcto. E tenho a certeza de que não estou sozinho.
Somos cidadãos do século XXI: mediatizados, cosmopolitizados, desenraizados.
As guerras, em África, só decorrem nos jornais e na televisão. Invenção jornalística, produto manufacturado em redacções de jornais sedentas de sangue. Genocídio? Conferência de Viena? Etnocentrismo? Nada. O racismo já faz parte de nós. Uma parte de mim marchou com os energúmenos de cabeça rapada que poluíram os Restauradores; uma parte de mim acreditou que 500 negros segregados participaram no Arrastão de Carcavelos.
As mesmas guerras, na Europa, são pequenos holocaustos. Menos na Albânia, que é islâmica. Menos no Kosovo, que também professa a fé em Muhammad. A tez branca, ao que parece (a mim também), sangra mais do que as outras.
Ainda noutro dia, fui assaltado. E eram dois brancos.
24 de novembro de 2005
23 de novembro de 2005
Biltres! Sodomitas! (seres humanos...)
A Igreja Católica decidiu coarctar, àqueles cuja orientação sexual não vem prescrita nas Sagradas Escrituras, a possibilidade de aceder ao sacerdócio. Para não ir mais longe, os gays já não podem ser padres. É mais uma decisão, de entre muitas, que demonstra quão afastado da realidade o Vaticano tem andado...nos últimos 500 anos. Mas não é isso que se discute. Nem por sombras.
Aquilo que eu discuto é muito simples. Se um dos bastiões da moral ocidental quer, passe o pleonasmo, "moralizar", que comece por impedir o acesso ao sacerdócio a todos os xenófobos. Melhor: que negue a entrada, nos seus templos, a todos os racistas e todos os que bradam pela "pureza racial"; a todos os indivíduos que professam a superioridade de uma raça sobre as outras.
Que proíba a ordenação de todos os seres humanos que devastam o ambiente, de uma forma ou de outra. Que negue todos os sacramentos àqueles que exploram outros seres humanos, em seu próprio proveito. Que negue aos promotores da morte, sejam eles genocidas americanos ou burocratas russos, a entrada num templo, onde rezam a sua hipocrisia.
Se se deseja a moralização da sociedade contemporânea, não se empreenderá tal façanha através da promoção da segregação.
PS. Pela natureza irónica do texto, não explicitei a óbvia diferença entre a homossexualidade, que nada tem de moral ou imoral, e a xenofobia, o racismo ou a depredação consciente do Ambiente, actos inerentemente imorais e inaceitáveis. Não quis, sequer, definir uma escala de moralidade.
Aquilo que eu discuto é muito simples. Se um dos bastiões da moral ocidental quer, passe o pleonasmo, "moralizar", que comece por impedir o acesso ao sacerdócio a todos os xenófobos. Melhor: que negue a entrada, nos seus templos, a todos os racistas e todos os que bradam pela "pureza racial"; a todos os indivíduos que professam a superioridade de uma raça sobre as outras.
Que proíba a ordenação de todos os seres humanos que devastam o ambiente, de uma forma ou de outra. Que negue todos os sacramentos àqueles que exploram outros seres humanos, em seu próprio proveito. Que negue aos promotores da morte, sejam eles genocidas americanos ou burocratas russos, a entrada num templo, onde rezam a sua hipocrisia.
Se se deseja a moralização da sociedade contemporânea, não se empreenderá tal façanha através da promoção da segregação.
PS. Pela natureza irónica do texto, não explicitei a óbvia diferença entre a homossexualidade, que nada tem de moral ou imoral, e a xenofobia, o racismo ou a depredação consciente do Ambiente, actos inerentemente imorais e inaceitáveis. Não quis, sequer, definir uma escala de moralidade.
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