Mais uma cimeira. Mais líderes reunidos. E uma imagem permanente (se é que as há): África em ruínas, deserto delapidado. Por cada Konaré, dois Mugabes. Por cada Botswana, dois Chades. E uma certeza cada vez menos desoladora e mais consensual: África não sairá do inferno porque não dá lucro,
África está trancada num limbo. Para uns, é o local do recém-inventado "volunturismo", tão perverso quão necessário. É a África dos pobrezinhos, das crianças de barriga monstruosa, da SIDA e do Ebola; é a África onde as democracias falham, não porque as condições histórico-estruturais impeçam a consolidação de processos formais tendentes à democratização e à criação de "uma" cultura política, mas porque "é uma questão de cultura". Esta é a África dos Live 8; a África das metrópoles hediondas, dos IDH paupérrimos e das bandeiras glorificadoras da invenção do senhor Kalashnikov. Também eu penso neste cenário apocalíptico, quando reflicto acerca de África, É o cenário que nos apresentam, telejornais adentro. Sinistros traficantes de armas, com óculos Rayban que escondem a ganância do olhar e dentes de ouro, um por cada milhar de civis abatidos. Curiosa fronteira: em África, civil é aquele que não tem meio de se defender. Ser civil é ser veículo de um genocídio eventual. Mas duvido que um qualquer miliciano europeu se atrevesse a considerar os Janjaweed militares; milícias, talvez. Entretanto, a esquerdinha europeia mobiliza estes elementos simbólicos, estas imagens sanguinolentas. Este é o outro lado da "Afrimagem": uma terra de oportunidades inalienáveis, a lavrar pelos proponentes do mercado livre e da "mão invisível". É a África do "Fiel Jardineiro" e de "Lord of War", filmes sensacionalistas em que, para não variar, os africanos são remetidos à secundaridade que, parece, é inerente à sua "africanidade". É a África sem estruturas económicas ou oportunidades, que aparece, sem falhar, no fundo de todos os índices que importam e no topo de todos os que ninguém quer ver. Onde a agricultura ainda é de sobrevivência; onde os bosquímanos continuam a ser antropófagos; onde as divisões étnicas continuam a imperar sobre a racionalidade ocidental... que nos trouxe a conferência de Berlim, Auschwitz e o Enola Gay. Sim, porque a nossa moralidade ainda não se descolonizou. É este o limbo em que África desagua: ou se metamorfoseia num parque de diversões para os ocidentais cheios de misericórdia ou se reconfigura numa zona de guerra, a la Reinos Combatentes chineses, onde é preciso que a ONU actue (mas sempre debaixo do guarda-chuva "hard-power"). É um limbo do qual não existe saída evidente.
"Para África, rapidamente e em força", é o que apetece dizer. É a África dos autocolantes da UNICEF, que dão vontade de chorar. Um momento depois, estamos a reparar nas linhas do novo modelo da Nokia.
Agora que a UE vai deixar Lomé para trás, importa reflectir. África está a ficar para trás. Continua a morar nas imaginações colonialistas - porque nós nunca descolonizámos o imaginário, e é isso que faz falta. Só aí veremos que, em África, moram pessoas que não precisam de fazer parte dos relatórios do PNUD, moram quotidianos que não querem fazer parte dos postais da UNICEF, vivem-se vidas que se regem pela obtenção da felicidade.
15 de dezembro de 2007
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