21 de novembro de 2007

Do riso e da tirania extrovertida

Eu sou introvertido. Aliás, muito introvertido. Prefiro reflectir e contemplar a procurar estímulos externos; não sou dado a explosões emotivas e, ainda menos, a procurar uma comunicação forçada e, a meu ver, histriónica. Mas, ao contrário daquilo que a mole extrovertida assume, não sou tímido ou insocial. A sociabilidade tem pouco a ver com modalidades expressivas, na minha opinião; tem a ver, isso sim, com a capacidade de criar empatia e extender ligações. No entanto, hoje, associa-se, crescentemente, esta capacidade empática com extroversão... Associações automáticas que tendem, com invariável segurança, a deslocar o centro de gravidade societal para aquilo que o grupo maioritário-hegemónico representa como "normal", "saudável" e "genuíno". Esta questão da autenticidade, daquilo que é o "verdadeiro comportamento" continua a estabelecer uma fronteira muito visível entre as pessoas. Mas bom, tergiverso.
Eu sou introvertido e sinto, muitas vezes, a opressão dos extrovertidos. Isto porque constituem uma maioria histericamente ciosa dos seus direitos. Os media e o mercado de trabalho estão organizados em função das suas prioridades, já para não falar dos espaços públicos físicos. Não me refiro ao espaço público como fórum interactivo de linhas isomórficas às da esfera pública; aí, esta dicotomia é dispersa, dada a equalização das formas comunicativas, dada a necessidade de traduzir os enunciados para um "outro" que se pretende receptor. Não: o que me interessa é, realmente, reconstruir as histórias de vida dos introvertidos. Porque a nossa individualidade é, regularmente, apagada; como temos necessidade de reflectir, e, portanto, de não verbalizar, somos qualificados de "estranhos", "calados", "tímidos", "anti-sociais" - normalmente, quem fala muito não pensa no que fala. Esta força policial, inteiramente devotada aos costumes, procura aferir a sociabilidade dos introvertidos. Não pensam, é claro, que a liberdade de expressão contém, em si, a possibilidade da não-expressão; os silenciosos são transportados para um limbo, como se se tornassem estrangeiros. Eu sinto-me, imensas vezes, um estrangeiro, incapaz de comunicar em termos inteligíveis para estas pessoas. É por isso, talvez, que me sinto esgotado, quando sou obrigado a estar, durante muito tempo, em contacto com extrovertidos militantes: não é tanto pela invasão à minha zona de conforto (que se reduz substancialmente, aquando destes recontros), é pela necessidade de pseudo-contacto que têm. É claro que estou a contradizer-me: agrego-os num homo aextrovertus, apesar de ter criticado o seu processo de etiquetagem preconceituosa. Concedo-me a tolerância da inferioridade numérica; é uma estratégia comum.
O pseudo-contacto é uma das facetas mais exasperantes deste conjunto de pessoas. Têm a pulsão do "networking", mas apenas na medida em que incrementar o fluxo de estímulos externos; ora, isto contraria a maior parte das práticas com que me autoconstruo como ser humano. Não os critico pela superficialidade das suas experiências relacionais, mas pela sanha evangélica com que pregam o seu credo. Nem sequer posso tentar demonstrar quão violenta é esta noção de comportamento; atrevo-me a dizer que roça a xenofobia, porque, no sentido de se conceber como original e "boa", tem que me colocar, e a uma série de outros introvertidos, do lado de fora da cerca. A entrada na festa só é permitida a quem se definir pelo exterior. E não posso tentar demonstrar essa violência porque este pensamento outside-the-box cai fora da utensilagem mental (já sei que o Lucien Febvre morreu em 1956, mas bear with me here) hegemónica e total com que foram aparelhados. Precisam de contacto físico e da ilusão de um "networking" intelectual/espiritual/emocional - mas apenas na medida em que esses inputs se traduzirem na certeza de uma superioridade comportamental. Do alto da sua insegurança, olham, altivos, os taciturnos e melancólicos introvertidos, incapazes de manter a velocidade necessária.

Porque, num processo dinâmico e concomitante, a sociedade pós-materialista e pós-industrial foi construída à volta desta massa amorfa de gente, que também foi moldada por cânones cuja compreensão não é difícil, mas cuja aceitação se me afigura impossível. Não há pior iludido que o iludido prosélito; bombardeados por reforços positivos - a criança comunicativa é um filho melhor que uma criança mais ponderada -, massajados nas costas por construções tão idiotas como curiosas - a ostentação de um certo poder como certeza de sucesso, tentam esmagar os que, de fora, questionam a sua narrativa. Sim, porque há uma narrativa extrovertida. Há uma série de mitos criadores da extroversão como panaceia geracional. Eu escolho não engolir baboseiras - o que me vale alguma solidão e alguns desaforos.

Porque não entendo determinado tipo de comportamentos. Não sei exactamente que palavras utilizar nas conversas casuais que, em boa parte, determinam a impressão que deixamos e ocupam parte importante da nossa existência actual. Apenas um introvertido pode entender a sensação de estranheza com que se fica, ao defrontar serviços burocráticas, em que a ritualização é de tal forma permeada por jogos de poder que a única saída aparente é boicotar pela rebeldia. No entanto, se não percebemos como agir ali, em abstracto, como podemos subverter o jogo?
Eu não sei como solucionar este problema. Creio que há um largo espectro de interacções humanas para lá da minha compreensão. E, no entanto, tenho a firme certeza de que não padeço de qualquer distúrbio. Na verdade, creio que a nossa sociedade caminha para a normalização da histrionia performativa.

Mas estas são as reflexões de um introvertido com um feitio muito pouco dócil. Somos todos, na realidade. A diferença é que não gostamos de o declarar em triplicado ou de informar todos os nossos amigos e conhecidos.