No fundo, meu caro amigo, o Neruda é tudo o que nos resta para iluminar a noite do mundo. Já se faz tarde, tenho que ir viver um bocado.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.
Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.
Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.
Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.
A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.
De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.
Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.
Pablo Neruda, comunista nunca arrependido (e que me agride do paraíso dos poetas por postar uma peça traduzida)
24 de setembro de 2007
23 de setembro de 2007
para onde?
Eu não sabia. Porra, não sabia mesmo. Devia ter levado aquilo a sério, mas fiquei ali, espoliado de iniciativa. Agora, é fácil tirar ilações, racionalizar cada molécula de H2O que exalou da minha pele. Na altura, eu não sabia.
Se calhar, até sabia. Afinal, era fácil intuí-lo, já não era o mesmo, já não era aquela faísca. Já não servia para plantar árvores e ensinar a pescar.
Não. Não. Como? Tenho o dom da presciência? Só sei que passo os dias de olhos encostados às grades da distância, esperando o tempo de esquecer. E achar que poderia ter sabido, e, com isso, ser menos diletante, exaspera-me. Sou um diletante paranóico? Tenho a paranóia, a obsessão de diletar (nem sei se há forma verbal), terá sido essa a razão para ter deixado as minhas costas com a responsabilidade de responder?
Se já sabia, por que razão a minha memória continua a obrigar-me a morar naquele lugar do tempo (ando a viver com seis meses de atraso)? E repito-me, simulando diálogos que não procedem, ficam sempre naquele tom maligno do desconforto. Detesto desconforto. Acho que sofro de paranóia. Repito as palavras, trocando-lhes o timbre, desfiando as sílabas e colorindo a semântica de tons delirantes, tétricos, psicanaliticamente incorrectos. E os gestos? Ah, os gestos. Rituais que me obrigam a recordar montanhas, neves eternas, daquelas onde as palmeiras dos sonhos também não podem viver - elas, que até nas Marianas são capazes de dançar o tango. Estou a fingir. Aliás, as minhas mãos são as fingidoras. Eu ainda penso ali. Ainda estou ali, e algo me diz que vou ter de ganhar a Volta à Memória, muito mais difícil que o Tour ou que a Ultra-Maratona, para já não estar. Para já não ser, se puder. Por enquanto, enceno, em loop, aquele momento em que as cores e as folhas se fundiram com os sons e as metáforas. "O mundo é uma metáfora de outra coisa qualquer?", pergunta o Mario, e o Pablo responde, na minha memória, "é, pois; é uma metáfora da desistência e da redenção". Mas o Pablo só existe na minha cabeça. Ali está ele, com o Eugénio, com o Charles, com o Dylan: observam, inconspícuos, o meu fracasso, a despedida, os olhos e as mãos que se desfazem, dialectos quebrados. Não há coisa mais estrangeira que dois pares de olhos que não se correspondem, mas não há espectáculo mais aterrador que dois pares de mãos em conflito de interesses. Mas foi só uma fracção de segundo, comprimir o azoto e as partículas de saudade que pairavam no ar convocou os deuses da despedida e pronto, adeus. Para onde? Que o adeus tem sempre uma volta, supostamente.
Afinal, talvez soubesse. Mas eu não passo de um fala-barato paranóico. E preciso de fechar os olhos.
Se calhar, até sabia. Afinal, era fácil intuí-lo, já não era o mesmo, já não era aquela faísca. Já não servia para plantar árvores e ensinar a pescar.
Não. Não. Como? Tenho o dom da presciência? Só sei que passo os dias de olhos encostados às grades da distância, esperando o tempo de esquecer. E achar que poderia ter sabido, e, com isso, ser menos diletante, exaspera-me. Sou um diletante paranóico? Tenho a paranóia, a obsessão de diletar (nem sei se há forma verbal), terá sido essa a razão para ter deixado as minhas costas com a responsabilidade de responder?
Se já sabia, por que razão a minha memória continua a obrigar-me a morar naquele lugar do tempo (ando a viver com seis meses de atraso)? E repito-me, simulando diálogos que não procedem, ficam sempre naquele tom maligno do desconforto. Detesto desconforto. Acho que sofro de paranóia. Repito as palavras, trocando-lhes o timbre, desfiando as sílabas e colorindo a semântica de tons delirantes, tétricos, psicanaliticamente incorrectos. E os gestos? Ah, os gestos. Rituais que me obrigam a recordar montanhas, neves eternas, daquelas onde as palmeiras dos sonhos também não podem viver - elas, que até nas Marianas são capazes de dançar o tango. Estou a fingir. Aliás, as minhas mãos são as fingidoras. Eu ainda penso ali. Ainda estou ali, e algo me diz que vou ter de ganhar a Volta à Memória, muito mais difícil que o Tour ou que a Ultra-Maratona, para já não estar. Para já não ser, se puder. Por enquanto, enceno, em loop, aquele momento em que as cores e as folhas se fundiram com os sons e as metáforas. "O mundo é uma metáfora de outra coisa qualquer?", pergunta o Mario, e o Pablo responde, na minha memória, "é, pois; é uma metáfora da desistência e da redenção". Mas o Pablo só existe na minha cabeça. Ali está ele, com o Eugénio, com o Charles, com o Dylan: observam, inconspícuos, o meu fracasso, a despedida, os olhos e as mãos que se desfazem, dialectos quebrados. Não há coisa mais estrangeira que dois pares de olhos que não se correspondem, mas não há espectáculo mais aterrador que dois pares de mãos em conflito de interesses. Mas foi só uma fracção de segundo, comprimir o azoto e as partículas de saudade que pairavam no ar convocou os deuses da despedida e pronto, adeus. Para onde? Que o adeus tem sempre uma volta, supostamente.
Afinal, talvez soubesse. Mas eu não passo de um fala-barato paranóico. E preciso de fechar os olhos.
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