8 de agosto de 2007

"We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal."

1. O homem que sonha deixou de vencer. Se essa verdade era auto-evidente, founding fathers, hoje, na Era do Fragmento, dizer que somos todos iguais era bem capaz de obrigar-vos a uma retractação pública. Defensores do politicamente correcto contam espingardas para defender o direito à diferença, queimam efígies em praça pública para acautelar as derivas homogeneizadoras dos estados e das corporações... enquanto que, do outro lado, os politicamente incorrectos tentam, num fiozinho de voz, manifestar a sua apreensão. Afinal de contas, já não temos moral nem ética: existem muitas morais e muitas mais éticas. Temos que cultivar o individualismo, a expressão da unicidade, mas de uma forma compreensível, que todos os outros indivíduos consigam perceber. Sonhar é coisa do passado, temos de procurar sensações.

2. Se alguém lesse este blog, seria crucificado por aquilo que escreverei agora. Ainda bem que ninguém me liga. Acho que a Era do Fragmento afecta muito particularmente as mulheres. Pois, sou um machista encapotado. Mas acho que, se há identidade que entrou, de facto, em crise, é a do género feminino. Afinal, o que é uma mulher, hoje em dia? É aquela cabra que apunhala e manipula todos os colegas de trabalho, sedenta de poder e apreciação (o poder é a testosterona das mulheres...; agora imaginem-nos, testosterona+poder= masculinidade)? Ou aquela que tapa o corpo aleatoriamente, com bocados de tecido cada vez mais esparsos, num ritual que termina em discotecas anónimas (e, no entanto, continuam a tapar os mamilos, coisa que me traz à memória discussões acerca dos ritmos da história, estruturas mentais que demoram a modificar-se...), com manifestações de sexualidade carnavalesca e estranhamente aparentada à percepção feminina do que é o sexo como manifestação de poder masculino? Ou a feminista que queima soutiens, confundindo direito com privilégio e amaldiçoando aquelas massas informes que circundam as gónadas masculinas? Pois é... a sociedade capitalista canibaliza as mulheres, diz que têm distúrbio borderline por inerência de género, aplica-lhes a etiqueta dúplice de sexualmente livre/mãe extremosa, mas nunca reconhece que esse jogo identitário, mais dia menos dia, acabará em... espera lá, já acabou, vejam as crianças over-sexed de hoje, "14 anos que parecem 20", geração morangos cujas mamas cresceram demasiado depressa, tão depressa que me levantam o sobrolho (e nada mais) com desconfiança e reservas acerca do futuro de tão lúbricas e pudibundas inocências. Pois, pudibundas, apesar de over-sexed: um discurso que as espartilha cada vez mais, uma sexualidade cada vez mais formatada, uma capacidade de expressão emocional brutalmente limitada, vocabulário em proporção directa com o tamanho da roupa... Whorff-Sapir, não é? São estas as mulheres de hoje e do hoje+1 (já não há futuro, porque deixou de haver sonhos)? Não sei, talvez. Sei que há mulheres auto-definidas em função dos homens, mimetizando ou contrariando, idolatrando ou desprezando. Ou falam como homens, como a Clara Ferreira Alves, ou falam como estereótipos de feminilidade, Marilyns de trazer por casa. Felizmente, ainda circulam por aí exemplares originais. Mas a originalidade está sobre-avaliada, dizem uns quantos estafermos. "Imaginação ao poder", era o que uns anti-estafermos diziam. A mim já soou melhor a ideia de "mulheres ao poder"; depois da Fátima Felgueiras e da Imelda Marcos, percebi que o género feminino, construído com afinco pela modernidade, ainda pesa nos ombros de muitas alminhas que se esforçam por mostrar quão emancipadas estão.

3. Apesar da ironia, nem tudo é verborreia.

6 de agosto de 2007

O telemóvel vibra. Ecoa, por todo o autocarro, um som metálico: um beat maléfico (porque pobre), e um rapper anónimo que sibila, em voz de comando, verdades inenarráveis sobre a vida no ghetto - porque a vida nos portuguesíssimos e reais bairros de lata é muito pouco "hip-hopável". Ao lado, uma pequena menina, franzina, de ar acabrunhado, com uma saliência ali para os lados da barriga, tenta acompanhar a tensão criada pelo dono do telemóvel, presumido pai de uma criança a quem não estava destinada a pole position. O pai, absorto na construção de um ar bélico, plena de teatralidade e testosterona, grunhe uma série de invectivas que, algures num deserto, um intérprete bosquímano tomaria por cumprimentos afáveis. Mas ali, naquele míssil amarelo, que levita pela Rua da Junqueira, não é um cumprimento - é um convite. Ele aguarda, feito predador. Que algum transeunte mais inconformado tente manifestar o desagrado pelo volume absurdo da música, que já passou pela urbanidade toda, do hip-hop ao reggaeton, passando pelo kuduro progressivo. Na verdade, ele refulge, porque sente o poder da exclusão. Lembro a sugestão de um amigo brasileiro, ele próprio cidadão do mundo: "o poder dos trópicos", que lerei, mas não agora. Agora, leio Cartas de Inglaterra, autor Eça de Queirós, o mesmo Eça que fala da blague, da verve e das espúrias realidades portuguesas - quando não inglesas e europeias, já agora. Já não é o Zé Povinho, não. Agora, é só um indivíduo sem referências, um... puto, que engravidou a namorada e ainda não percebeu que a vida lhe pregou uma rasteira, que ele era um comboio no limiar do descarrilamento. E aquele telemóvel é a vileza do destino a falar, a dizer-lhe que ele bem pode almejar o conflito, a escuridão, a violência. Pode soletrar a palavra "poder" e inscrevê-la a fogo nas veias e nos ventrículos cardíacos. Mas continua a ser um "gajo das barracas". E ele confirma-o, prestável. Uma das Fúrias, mascarada de velha desbragada e desfasada da hiperrealidade em que vive, naquele instante, procura colocá-lo no lugar; recorre ao Eça, usa a ironia. Mas não chega. A ironia só atinge quem vive com ela e também a usa. Se não há sentido de humor, minha pobre figura mitológica... o tiro ricocheteia. E ele ameaça, diz que lhe dá uma "arrochada", esmurra o vidro e olha, lenta mas sofregamente, para a menina. Ela tenta compassar a voz, a expressão, ser, também, uma "gaja das barracas". Pois, penso eu. Tens 17 anos e o mapa do teu destino já só tem gatafunhos, desenhados pela tua própria mão. Estavas cega e mantiveste-te sonolenta. Quiseste acordar, mas era tarde demais. Isto não é o Monopólio, rapariga. Não vives aos círculos ou por ciclos. Andei a tirar um curso de História para o saber. A vida individual é tempo linear e cumulativo: se te enganas, se cometes erros, fatalismos e pessimismos servem de pouco. Também não chegas à casa da partida e recebes dois mil euros de seguida. Se calhar, chegas a casa e levas uma "arrochada". Que o ódio e a violência, acho eu, são armas mais efectivas quando usadas por aqueles em quem confiamos.