6 de agosto de 2007
O telemóvel vibra. Ecoa, por todo o autocarro, um som metálico: um beat maléfico (porque pobre), e um rapper anónimo que sibila, em voz de comando, verdades inenarráveis sobre a vida no ghetto - porque a vida nos portuguesíssimos e reais bairros de lata é muito pouco "hip-hopável". Ao lado, uma pequena menina, franzina, de ar acabrunhado, com uma saliência ali para os lados da barriga, tenta acompanhar a tensão criada pelo dono do telemóvel, presumido pai de uma criança a quem não estava destinada a pole position. O pai, absorto na construção de um ar bélico, plena de teatralidade e testosterona, grunhe uma série de invectivas que, algures num deserto, um intérprete bosquímano tomaria por cumprimentos afáveis. Mas ali, naquele míssil amarelo, que levita pela Rua da Junqueira, não é um cumprimento - é um convite. Ele aguarda, feito predador. Que algum transeunte mais inconformado tente manifestar o desagrado pelo volume absurdo da música, que já passou pela urbanidade toda, do hip-hop ao reggaeton, passando pelo kuduro progressivo. Na verdade, ele refulge, porque sente o poder da exclusão. Lembro a sugestão de um amigo brasileiro, ele próprio cidadão do mundo: "o poder dos trópicos", que lerei, mas não agora. Agora, leio Cartas de Inglaterra, autor Eça de Queirós, o mesmo Eça que fala da blague, da verve e das espúrias realidades portuguesas - quando não inglesas e europeias, já agora. Já não é o Zé Povinho, não. Agora, é só um indivíduo sem referências, um... puto, que engravidou a namorada e ainda não percebeu que a vida lhe pregou uma rasteira, que ele era um comboio no limiar do descarrilamento. E aquele telemóvel é a vileza do destino a falar, a dizer-lhe que ele bem pode almejar o conflito, a escuridão, a violência. Pode soletrar a palavra "poder" e inscrevê-la a fogo nas veias e nos ventrículos cardíacos. Mas continua a ser um "gajo das barracas". E ele confirma-o, prestável. Uma das Fúrias, mascarada de velha desbragada e desfasada da hiperrealidade em que vive, naquele instante, procura colocá-lo no lugar; recorre ao Eça, usa a ironia. Mas não chega. A ironia só atinge quem vive com ela e também a usa. Se não há sentido de humor, minha pobre figura mitológica... o tiro ricocheteia. E ele ameaça, diz que lhe dá uma "arrochada", esmurra o vidro e olha, lenta mas sofregamente, para a menina. Ela tenta compassar a voz, a expressão, ser, também, uma "gaja das barracas". Pois, penso eu. Tens 17 anos e o mapa do teu destino já só tem gatafunhos, desenhados pela tua própria mão. Estavas cega e mantiveste-te sonolenta. Quiseste acordar, mas era tarde demais. Isto não é o Monopólio, rapariga. Não vives aos círculos ou por ciclos. Andei a tirar um curso de História para o saber. A vida individual é tempo linear e cumulativo: se te enganas, se cometes erros, fatalismos e pessimismos servem de pouco. Também não chegas à casa da partida e recebes dois mil euros de seguida. Se calhar, chegas a casa e levas uma "arrochada". Que o ódio e a violência, acho eu, são armas mais efectivas quando usadas por aqueles em quem confiamos.
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