Ontem, tive uma experiência absolutamente irreal. Não surreal, porque não posso crer que algo daquele género possa elevar-se acima do real. Talvez subreal. Ou meta-real. Porém, gosto de Umberto Eco (com um cheirinho ao inenarrável Jean Baudrillard) e do seu conceito de irrealidade. Irreal será.
Participei nas gravações do afamado concurso televisivo "Um Contra Todos". Trata-se de um formato sobejamente conhecido: os participantes convertem a sua cultura geral em cifrões e transaccionam esse capital recém-adquirido com a estação televisiva, que, por sua vez, converterá o "espectáculo" em audiência, publicidade e... mais capital, pois claro.
Saí de lá estafado. Pensei que a razão desse cansaço se prendesse com um erro de palmatória: não ter reconhecido, de imediato, a autoria d' "A Anunciação". Fra Angelico, claro. Mas não. Não foi durante a gravação do episódio. Foi durante os intervalos. Ouvir as conversas, sempre polidas e assépticas, dos participantes, alguns deles veteraníssimos daquelas andanças. Discutiram-se estratégias, no melhor (e pior) de Maquiavel e Clausewitz; filosofou-se acerca da ganância, porque uma concorrente perdeu todo o dinheiro ganho; só não se falou dessa conversão sinistra, da mutação cultura - dinheiro.
Duas palavras assomaram ao meu espírito, fadado às abstracções e à visão hiper-crítica. Timolatria e Plutofilia. Palavrões? Talvez. Podia dizer que aquela amostra (altamente significativa, pela diversidade etária e, talvez, social) da população portuguesa quer é dinheiro, são uns gananciosos. Mas não, prefiro conceitos que exprimem, de forma mais eficaz, a gravidade da situação. Porque é uma situação extremamente grave.
Quero ser do tempo em que o conhecimento era um bem a ser aplicado em prol do outro e da sociedade. Quero ser do tempo em que o trabalho era um contrato social, com a ênfase no social.
Não é isso que se observa. A liderança televisiva de "Um Contra Todos", e, antes dele, "Quem Quer Ser Milionário", entre milhentos outros, é um sintoma da instrumentalização da cultura, tornada via para a obtenção de dinheiro. Nem sequer poder, apenas cifrões. Pergunta simples: a cultura desvirtuada e performativa ainda é cultura? Ali, naquele local perfeitamente descaracterizado, tido como estúdio, mas que identifiquei como templo a Andy Warhol e Gordon Gekko, percebi que não.
1. Observar aquele espectáculo é revelador. Falo do espectáculo exterior ao estúdio. Marx era, de facto, um lírico. As massas alienam-se de livre vontade. Explicar que o capitalismo oitocentista (existe, a meu ver, um retorno à selvajaria do séc. XIX, Reagan, Thatcher, Sarkozy e Sócrates, depois de um pós-guerra humanizador) é uma instituição total, um sistema englobador e atrofiador do livre-arbítrio e da liberdade de expressão não vale de nada. Nem mesmo simplificar a mensagem, chegar ao ponto de dizer "O dinheiro que vos corre nas veias está a entupir-vos o cérebro!".
Como é possível manter uma posição de ortodoxia absoluta, seja ela marxista, leninista, estalinista, maoísta ou trotskista, depois de observar a contínua auto-alienação dos indivíduos? Ainda há "classes"? Ainda há "burgueses" que se apropriam dos meios de produção? Tenho as minhas dúvidas. Nesta sociedade pós-moderna e pós-contemporânea, essas identidades e processos negociais associados já não têm a validade de outrora. Ficar, dias a fio, num estúdio, a tentar ganhar dinheiro pela prostituição da cultura não é atribuível somente a uma imposição sistémica. Basta pensar na atribuição de valor aos papéis que todos desempenhamos na estrutura económico-política. Quem é valioso? Quem é a pessoa mais realizada? Aquele que ganha mais dinheiro. E, na maior parte das vezes, nunca problematizamos esta relação. Contudo, se pegarmos neste postulado e isolarmos as suas premissas, a fragilidade do argumento é, por demais, evidente. Passamos da atribuição de um valor comercial, material ao trabalho, como retorno/recompensa pela valia do desempenho, à justaposição do capital e do desempenho. Nisto, Marx tinha razão. Não só há um fetiche da mercadoria, como há um fetiche do capital. No resto, creio que foi estruturalista antes do tempo e desprezou a capacidade individual de funcionar fora do sistema. É possível, e não é preciso sermos eremitas hippies nem idolatrarmos o Chávez ou o Fidel.
2. A timolatria é uma doença. A vida humana mediada pelo dinheiro é como um ecossistema em entropização acelerada. No "Um Contra Todos", todo aquele rito litúrgico procede em torno do anonimato arquetípico, o gajo sem cara que, por 15 minutos, usa a cultura que lhe foi dada pelo sistema de ensino massificado e tenta ganhar dinheiro, para ascender socialmente. Ainda são pessoas que estão ali? Era eu um indivíduo, dotado de alteridade? Digo apenas que nunca tinha reparado que os concorrentes anónimos têm todos a mesma altura. Há estrados para equalizar as alturas. Cheira-me a distopia orwelliana em potência (mas eu, também, tenho a mania de ver coisas onde elas não estão e de falar sem ser ouvido). Eles são os "Todos", a massa amorfa e sedenta de uma oportunidade de mostrar que sabe. "Self-made men" pós-contemporâneos.
28 de abril de 2007
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