15 de dezembro de 2007

Mais uma cimeira. Mais líderes reunidos. E uma imagem permanente (se é que as há): África em ruínas, deserto delapidado. Por cada Konaré, dois Mugabes. Por cada Botswana, dois Chades. E uma certeza cada vez menos desoladora e mais consensual: África não sairá do inferno porque não dá lucro,
África está trancada num limbo. Para uns, é o local do recém-inventado "volunturismo", tão perverso quão necessário. É a África dos pobrezinhos, das crianças de barriga monstruosa, da SIDA e do Ebola; é a África onde as democracias falham, não porque as condições histórico-estruturais impeçam a consolidação de processos formais tendentes à democratização e à criação de "uma" cultura política, mas porque "é uma questão de cultura". Esta é a África dos Live 8; a África das metrópoles hediondas, dos IDH paupérrimos e das bandeiras glorificadoras da invenção do senhor Kalashnikov. Também eu penso neste cenário apocalíptico, quando reflicto acerca de África, É o cenário que nos apresentam, telejornais adentro. Sinistros traficantes de armas, com óculos Rayban que escondem a ganância do olhar e dentes de ouro, um por cada milhar de civis abatidos. Curiosa fronteira: em África, civil é aquele que não tem meio de se defender. Ser civil é ser veículo de um genocídio eventual. Mas duvido que um qualquer miliciano europeu se atrevesse a considerar os Janjaweed militares; milícias, talvez. Entretanto, a esquerdinha europeia mobiliza estes elementos simbólicos, estas imagens sanguinolentas. Este é o outro lado da "Afrimagem": uma terra de oportunidades inalienáveis, a lavrar pelos proponentes do mercado livre e da "mão invisível". É a África do "Fiel Jardineiro" e de "Lord of War", filmes sensacionalistas em que, para não variar, os africanos são remetidos à secundaridade que, parece, é inerente à sua "africanidade". É a África sem estruturas económicas ou oportunidades, que aparece, sem falhar, no fundo de todos os índices que importam e no topo de todos os que ninguém quer ver. Onde a agricultura ainda é de sobrevivência; onde os bosquímanos continuam a ser antropófagos; onde as divisões étnicas continuam a imperar sobre a racionalidade ocidental... que nos trouxe a conferência de Berlim, Auschwitz e o Enola Gay. Sim, porque a nossa moralidade ainda não se descolonizou. É este o limbo em que África desagua: ou se metamorfoseia num parque de diversões para os ocidentais cheios de misericórdia ou se reconfigura numa zona de guerra, a la Reinos Combatentes chineses, onde é preciso que a ONU actue (mas sempre debaixo do guarda-chuva "hard-power"). É um limbo do qual não existe saída evidente.
"Para África, rapidamente e em força", é o que apetece dizer. É a África dos autocolantes da UNICEF, que dão vontade de chorar. Um momento depois, estamos a reparar nas linhas do novo modelo da Nokia.
Agora que a UE vai deixar Lomé para trás, importa reflectir. África está a ficar para trás. Continua a morar nas imaginações colonialistas - porque nós nunca descolonizámos o imaginário, e é isso que faz falta. Só aí veremos que, em África, moram pessoas que não precisam de fazer parte dos relatórios do PNUD, moram quotidianos que não querem fazer parte dos postais da UNICEF, vivem-se vidas que se regem pela obtenção da felicidade.

21 de novembro de 2007

Do riso e da tirania extrovertida

Eu sou introvertido. Aliás, muito introvertido. Prefiro reflectir e contemplar a procurar estímulos externos; não sou dado a explosões emotivas e, ainda menos, a procurar uma comunicação forçada e, a meu ver, histriónica. Mas, ao contrário daquilo que a mole extrovertida assume, não sou tímido ou insocial. A sociabilidade tem pouco a ver com modalidades expressivas, na minha opinião; tem a ver, isso sim, com a capacidade de criar empatia e extender ligações. No entanto, hoje, associa-se, crescentemente, esta capacidade empática com extroversão... Associações automáticas que tendem, com invariável segurança, a deslocar o centro de gravidade societal para aquilo que o grupo maioritário-hegemónico representa como "normal", "saudável" e "genuíno". Esta questão da autenticidade, daquilo que é o "verdadeiro comportamento" continua a estabelecer uma fronteira muito visível entre as pessoas. Mas bom, tergiverso.
Eu sou introvertido e sinto, muitas vezes, a opressão dos extrovertidos. Isto porque constituem uma maioria histericamente ciosa dos seus direitos. Os media e o mercado de trabalho estão organizados em função das suas prioridades, já para não falar dos espaços públicos físicos. Não me refiro ao espaço público como fórum interactivo de linhas isomórficas às da esfera pública; aí, esta dicotomia é dispersa, dada a equalização das formas comunicativas, dada a necessidade de traduzir os enunciados para um "outro" que se pretende receptor. Não: o que me interessa é, realmente, reconstruir as histórias de vida dos introvertidos. Porque a nossa individualidade é, regularmente, apagada; como temos necessidade de reflectir, e, portanto, de não verbalizar, somos qualificados de "estranhos", "calados", "tímidos", "anti-sociais" - normalmente, quem fala muito não pensa no que fala. Esta força policial, inteiramente devotada aos costumes, procura aferir a sociabilidade dos introvertidos. Não pensam, é claro, que a liberdade de expressão contém, em si, a possibilidade da não-expressão; os silenciosos são transportados para um limbo, como se se tornassem estrangeiros. Eu sinto-me, imensas vezes, um estrangeiro, incapaz de comunicar em termos inteligíveis para estas pessoas. É por isso, talvez, que me sinto esgotado, quando sou obrigado a estar, durante muito tempo, em contacto com extrovertidos militantes: não é tanto pela invasão à minha zona de conforto (que se reduz substancialmente, aquando destes recontros), é pela necessidade de pseudo-contacto que têm. É claro que estou a contradizer-me: agrego-os num homo aextrovertus, apesar de ter criticado o seu processo de etiquetagem preconceituosa. Concedo-me a tolerância da inferioridade numérica; é uma estratégia comum.
O pseudo-contacto é uma das facetas mais exasperantes deste conjunto de pessoas. Têm a pulsão do "networking", mas apenas na medida em que incrementar o fluxo de estímulos externos; ora, isto contraria a maior parte das práticas com que me autoconstruo como ser humano. Não os critico pela superficialidade das suas experiências relacionais, mas pela sanha evangélica com que pregam o seu credo. Nem sequer posso tentar demonstrar quão violenta é esta noção de comportamento; atrevo-me a dizer que roça a xenofobia, porque, no sentido de se conceber como original e "boa", tem que me colocar, e a uma série de outros introvertidos, do lado de fora da cerca. A entrada na festa só é permitida a quem se definir pelo exterior. E não posso tentar demonstrar essa violência porque este pensamento outside-the-box cai fora da utensilagem mental (já sei que o Lucien Febvre morreu em 1956, mas bear with me here) hegemónica e total com que foram aparelhados. Precisam de contacto físico e da ilusão de um "networking" intelectual/espiritual/emocional - mas apenas na medida em que esses inputs se traduzirem na certeza de uma superioridade comportamental. Do alto da sua insegurança, olham, altivos, os taciturnos e melancólicos introvertidos, incapazes de manter a velocidade necessária.

Porque, num processo dinâmico e concomitante, a sociedade pós-materialista e pós-industrial foi construída à volta desta massa amorfa de gente, que também foi moldada por cânones cuja compreensão não é difícil, mas cuja aceitação se me afigura impossível. Não há pior iludido que o iludido prosélito; bombardeados por reforços positivos - a criança comunicativa é um filho melhor que uma criança mais ponderada -, massajados nas costas por construções tão idiotas como curiosas - a ostentação de um certo poder como certeza de sucesso, tentam esmagar os que, de fora, questionam a sua narrativa. Sim, porque há uma narrativa extrovertida. Há uma série de mitos criadores da extroversão como panaceia geracional. Eu escolho não engolir baboseiras - o que me vale alguma solidão e alguns desaforos.

Porque não entendo determinado tipo de comportamentos. Não sei exactamente que palavras utilizar nas conversas casuais que, em boa parte, determinam a impressão que deixamos e ocupam parte importante da nossa existência actual. Apenas um introvertido pode entender a sensação de estranheza com que se fica, ao defrontar serviços burocráticas, em que a ritualização é de tal forma permeada por jogos de poder que a única saída aparente é boicotar pela rebeldia. No entanto, se não percebemos como agir ali, em abstracto, como podemos subverter o jogo?
Eu não sei como solucionar este problema. Creio que há um largo espectro de interacções humanas para lá da minha compreensão. E, no entanto, tenho a firme certeza de que não padeço de qualquer distúrbio. Na verdade, creio que a nossa sociedade caminha para a normalização da histrionia performativa.

Mas estas são as reflexões de um introvertido com um feitio muito pouco dócil. Somos todos, na realidade. A diferença é que não gostamos de o declarar em triplicado ou de informar todos os nossos amigos e conhecidos.

9 de outubro de 2007

umuntu ngumuntu ngabantu

O que hei-de fazer? Sou viciado em larachas humanistas e com um cheirinho a hippie (não, não é cheiro a axila mal higienizada). Descobri, há pouco tempo, o Ubuntu. É a nova onda dos burgueses ocidentais que vêem, na "anarquinternet", a solução milagrosas para os seus lapsos freudianos. Um pouco no registo dos Converse Pink-Anarchy.
Enfim, o open-source tem o interesse de ser um movimento paradoxal: no seu âmago, é um fenómeno de tendência popular, feito para as massas; contudo, dado o seu carácter esotérico - ao ponto de se tornar mais um meta-discurso que um movimento tecno-social (assustador, o termo) -, parecia fadado à obscuridade dos quartos húmidos e lúgubres dos chamados geeks, termo engraçado que a sociedade pós-contemporânea, hiper-globalizada e fragmentada, aplica a todos os sacerdotes da segmentação cultural. Uma linha de código aqui, outra ali, e puff!, eis que surge o novo Cálice pythoniano da computação. Na mais pura das ininteligibilidades (palavra, por si mesma, impossível de ler), essa comunidade parecia não compreender que, para ser verdadeiramente open, o movimento precisava de uma abertura total e não imaginada. Ninguém quer escrever linhas de código para abrir uma janela e mandar um mail. Queremos facilidade e consciência tranquila, de não beber a água suja do capitalismo enquanto compramos qualquer coisa on-line na Amazon. O Ubuntu é a face mais temível da ameaça que pende sobre a cabeça da Microsoft e, digo eu, de todas as "brands" monopolistas, conglomerados que deploram o sentido de comunidade inerente a todos os seres humanos. Bom, nem todos.
É um "Linux para seres humanos". Sabem, aquele sistema operativo que apenas umas três ou quatro pessoas, à escala mundial, conseguem utilizar sem recorrer a psicofármacos. Mas, desta feita, revertido do "computês". (Trata-se de uma manobra publicitária tremenda, mas injusta para quem devotou anos à construção de base... ironias, não?)
E, de facto, é mais fácil de usar que o Windows. Dá menos problemas, dá para modificar como entendermos - afinal de contas, é open-source. É, em suma, uma faceta ainda impúbere do século XXI massificado; não requer esforço de aprendizagem para entrar num círculo ilusoriamente esotérico; tem um princípio filosófico artificialmente universalizado (leiam este artigo e digam-me se não é mais um caso de comercialização cultural...); de génese num país exterior ao culturalmente decrépito bloco ocidental (na África do Sul - que, com o Ubuntu, dá corpo digital à sua tentativa de construir um discurso de coesão), tem, atrás de si, um marketing viral estupendo (a imagem de marca é fabulosa; alguns políticos portugueses deviam contratar os consultores de imagem do programa e da empresa); a reputação da comunidade é intocável. É uma mélange deliciosa, convenhamos. O meu portátil Toshiba fica mais bonito com o Ubuntu. E a minha consciência burguesa e votante no BE também.

24 de setembro de 2007

Ele pode escrever os versos mais tristes, mas nós sentimo-los. e isso é que fascina no homo sapiens sapiens

No fundo, meu caro amigo, o Neruda é tudo o que nos resta para iluminar a noite do mundo. Já se faz tarde, tenho que ir viver um bocado.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

Pablo Neruda, comunista nunca arrependido (e que me agride do paraíso dos poetas por postar uma peça traduzida)

23 de setembro de 2007

para onde?

Eu não sabia. Porra, não sabia mesmo. Devia ter levado aquilo a sério, mas fiquei ali, espoliado de iniciativa. Agora, é fácil tirar ilações, racionalizar cada molécula de H2O que exalou da minha pele. Na altura, eu não sabia.

Se calhar, até sabia. Afinal, era fácil intuí-lo, já não era o mesmo, já não era aquela faísca. Já não servia para plantar árvores e ensinar a pescar.

Não. Não. Como? Tenho o dom da presciência? Só sei que passo os dias de olhos encostados às grades da distância, esperando o tempo de esquecer. E achar que poderia ter sabido, e, com isso, ser menos diletante, exaspera-me. Sou um diletante paranóico? Tenho a paranóia, a obsessão de diletar (nem sei se há forma verbal), terá sido essa a razão para ter deixado as minhas costas com a responsabilidade de responder?

Se já sabia, por que razão a minha memória continua a obrigar-me a morar naquele lugar do tempo (ando a viver com seis meses de atraso)? E repito-me, simulando diálogos que não procedem, ficam sempre naquele tom maligno do desconforto. Detesto desconforto. Acho que sofro de paranóia. Repito as palavras, trocando-lhes o timbre, desfiando as sílabas e colorindo a semântica de tons delirantes, tétricos, psicanaliticamente incorrectos. E os gestos? Ah, os gestos. Rituais que me obrigam a recordar montanhas, neves eternas, daquelas onde as palmeiras dos sonhos também não podem viver - elas, que até nas Marianas são capazes de dançar o tango. Estou a fingir. Aliás, as minhas mãos são as fingidoras. Eu ainda penso ali. Ainda estou ali, e algo me diz que vou ter de ganhar a Volta à Memória, muito mais difícil que o Tour ou que a Ultra-Maratona, para já não estar. Para já não ser, se puder. Por enquanto, enceno, em loop, aquele momento em que as cores e as folhas se fundiram com os sons e as metáforas. "O mundo é uma metáfora de outra coisa qualquer?", pergunta o Mario, e o Pablo responde, na minha memória, "é, pois; é uma metáfora da desistência e da redenção". Mas o Pablo só existe na minha cabeça. Ali está ele, com o Eugénio, com o Charles, com o Dylan: observam, inconspícuos, o meu fracasso, a despedida, os olhos e as mãos que se desfazem, dialectos quebrados. Não há coisa mais estrangeira que dois pares de olhos que não se correspondem, mas não há espectáculo mais aterrador que dois pares de mãos em conflito de interesses. Mas foi só uma fracção de segundo, comprimir o azoto e as partículas de saudade que pairavam no ar convocou os deuses da despedida e pronto, adeus. Para onde? Que o adeus tem sempre uma volta, supostamente.

Afinal, talvez soubesse. Mas eu não passo de um fala-barato paranóico. E preciso de fechar os olhos.

8 de agosto de 2007

"We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal."

1. O homem que sonha deixou de vencer. Se essa verdade era auto-evidente, founding fathers, hoje, na Era do Fragmento, dizer que somos todos iguais era bem capaz de obrigar-vos a uma retractação pública. Defensores do politicamente correcto contam espingardas para defender o direito à diferença, queimam efígies em praça pública para acautelar as derivas homogeneizadoras dos estados e das corporações... enquanto que, do outro lado, os politicamente incorrectos tentam, num fiozinho de voz, manifestar a sua apreensão. Afinal de contas, já não temos moral nem ética: existem muitas morais e muitas mais éticas. Temos que cultivar o individualismo, a expressão da unicidade, mas de uma forma compreensível, que todos os outros indivíduos consigam perceber. Sonhar é coisa do passado, temos de procurar sensações.

2. Se alguém lesse este blog, seria crucificado por aquilo que escreverei agora. Ainda bem que ninguém me liga. Acho que a Era do Fragmento afecta muito particularmente as mulheres. Pois, sou um machista encapotado. Mas acho que, se há identidade que entrou, de facto, em crise, é a do género feminino. Afinal, o que é uma mulher, hoje em dia? É aquela cabra que apunhala e manipula todos os colegas de trabalho, sedenta de poder e apreciação (o poder é a testosterona das mulheres...; agora imaginem-nos, testosterona+poder= masculinidade)? Ou aquela que tapa o corpo aleatoriamente, com bocados de tecido cada vez mais esparsos, num ritual que termina em discotecas anónimas (e, no entanto, continuam a tapar os mamilos, coisa que me traz à memória discussões acerca dos ritmos da história, estruturas mentais que demoram a modificar-se...), com manifestações de sexualidade carnavalesca e estranhamente aparentada à percepção feminina do que é o sexo como manifestação de poder masculino? Ou a feminista que queima soutiens, confundindo direito com privilégio e amaldiçoando aquelas massas informes que circundam as gónadas masculinas? Pois é... a sociedade capitalista canibaliza as mulheres, diz que têm distúrbio borderline por inerência de género, aplica-lhes a etiqueta dúplice de sexualmente livre/mãe extremosa, mas nunca reconhece que esse jogo identitário, mais dia menos dia, acabará em... espera lá, já acabou, vejam as crianças over-sexed de hoje, "14 anos que parecem 20", geração morangos cujas mamas cresceram demasiado depressa, tão depressa que me levantam o sobrolho (e nada mais) com desconfiança e reservas acerca do futuro de tão lúbricas e pudibundas inocências. Pois, pudibundas, apesar de over-sexed: um discurso que as espartilha cada vez mais, uma sexualidade cada vez mais formatada, uma capacidade de expressão emocional brutalmente limitada, vocabulário em proporção directa com o tamanho da roupa... Whorff-Sapir, não é? São estas as mulheres de hoje e do hoje+1 (já não há futuro, porque deixou de haver sonhos)? Não sei, talvez. Sei que há mulheres auto-definidas em função dos homens, mimetizando ou contrariando, idolatrando ou desprezando. Ou falam como homens, como a Clara Ferreira Alves, ou falam como estereótipos de feminilidade, Marilyns de trazer por casa. Felizmente, ainda circulam por aí exemplares originais. Mas a originalidade está sobre-avaliada, dizem uns quantos estafermos. "Imaginação ao poder", era o que uns anti-estafermos diziam. A mim já soou melhor a ideia de "mulheres ao poder"; depois da Fátima Felgueiras e da Imelda Marcos, percebi que o género feminino, construído com afinco pela modernidade, ainda pesa nos ombros de muitas alminhas que se esforçam por mostrar quão emancipadas estão.

3. Apesar da ironia, nem tudo é verborreia.

6 de agosto de 2007

O telemóvel vibra. Ecoa, por todo o autocarro, um som metálico: um beat maléfico (porque pobre), e um rapper anónimo que sibila, em voz de comando, verdades inenarráveis sobre a vida no ghetto - porque a vida nos portuguesíssimos e reais bairros de lata é muito pouco "hip-hopável". Ao lado, uma pequena menina, franzina, de ar acabrunhado, com uma saliência ali para os lados da barriga, tenta acompanhar a tensão criada pelo dono do telemóvel, presumido pai de uma criança a quem não estava destinada a pole position. O pai, absorto na construção de um ar bélico, plena de teatralidade e testosterona, grunhe uma série de invectivas que, algures num deserto, um intérprete bosquímano tomaria por cumprimentos afáveis. Mas ali, naquele míssil amarelo, que levita pela Rua da Junqueira, não é um cumprimento - é um convite. Ele aguarda, feito predador. Que algum transeunte mais inconformado tente manifestar o desagrado pelo volume absurdo da música, que já passou pela urbanidade toda, do hip-hop ao reggaeton, passando pelo kuduro progressivo. Na verdade, ele refulge, porque sente o poder da exclusão. Lembro a sugestão de um amigo brasileiro, ele próprio cidadão do mundo: "o poder dos trópicos", que lerei, mas não agora. Agora, leio Cartas de Inglaterra, autor Eça de Queirós, o mesmo Eça que fala da blague, da verve e das espúrias realidades portuguesas - quando não inglesas e europeias, já agora. Já não é o Zé Povinho, não. Agora, é só um indivíduo sem referências, um... puto, que engravidou a namorada e ainda não percebeu que a vida lhe pregou uma rasteira, que ele era um comboio no limiar do descarrilamento. E aquele telemóvel é a vileza do destino a falar, a dizer-lhe que ele bem pode almejar o conflito, a escuridão, a violência. Pode soletrar a palavra "poder" e inscrevê-la a fogo nas veias e nos ventrículos cardíacos. Mas continua a ser um "gajo das barracas". E ele confirma-o, prestável. Uma das Fúrias, mascarada de velha desbragada e desfasada da hiperrealidade em que vive, naquele instante, procura colocá-lo no lugar; recorre ao Eça, usa a ironia. Mas não chega. A ironia só atinge quem vive com ela e também a usa. Se não há sentido de humor, minha pobre figura mitológica... o tiro ricocheteia. E ele ameaça, diz que lhe dá uma "arrochada", esmurra o vidro e olha, lenta mas sofregamente, para a menina. Ela tenta compassar a voz, a expressão, ser, também, uma "gaja das barracas". Pois, penso eu. Tens 17 anos e o mapa do teu destino já só tem gatafunhos, desenhados pela tua própria mão. Estavas cega e mantiveste-te sonolenta. Quiseste acordar, mas era tarde demais. Isto não é o Monopólio, rapariga. Não vives aos círculos ou por ciclos. Andei a tirar um curso de História para o saber. A vida individual é tempo linear e cumulativo: se te enganas, se cometes erros, fatalismos e pessimismos servem de pouco. Também não chegas à casa da partida e recebes dois mil euros de seguida. Se calhar, chegas a casa e levas uma "arrochada". Que o ódio e a violência, acho eu, são armas mais efectivas quando usadas por aqueles em quem confiamos.