31 de janeiro de 2007

O Outro

Quem és tu, estranho? Quem és, alma penada? És uma projecção lugúbre dos meus preconceitos? Por que razão falas nesse linguajar idiota? És amarelo, agora és preto, tornas-te, de repente, vermelho. És sempre um silencioso escravo das minhas definições, da minha ocidentalidade imperialista. Não te podes defender das minhas chicotadas, eu sou o teu carrasco, o teu escultor, o agente da tua perda. Arrancar-te-ei os olhos, tirar-te-ei a individualidade que jamais tiveste. És um selvagem, maltrapilho incivilizado e rústico. Apenas consegues perviver na memória do exótico, como uma aberração demasiado próxima. Tu não choras nem ris, és um farrapo de rocha insubstante. A tua cultura é o meu campo de batalha. A tua linguagem primitiva é o tijolo com que ergo o mausoléu da tua morte. Espera. Não. Tu nunca chegaste a nascer. Não tens religião, és um sinal ortográfico insignificante, na minha marcha imperial, rumo às trevas do progresso. Pisoteio os teus rituais com a minha peripatetice, porque as tuas categorias mentais nem sequer conseguem defender-se. Quem és tu, que és tu, o que serias tu, triste sombra? Vagueias, nomádico, serpenteante, sem passado, presente ou futuro, sempiterno poluidor do logos. Qual é a tua razão? Define-te. Ou és uma verdade ou és uma fúria. Não, espera. És apenas uma projecção. És somente as pulsões maléficas, tanáticas, quiméricas, de que desistimos há tempos que tentamos esquecer. Tu és o que nós fomos. És, nunca foste nem serás. E, por isso, violo-te com o meu olhar esfacelador.

22 de janeiro de 2007

África-Ifriqiya-Africa proconsularis

Sonhos de África. De cores e texturas e sons e silêncios. Abensonhada (sic) África. Deixar penetrar o cacimbo nas veias, desatar a respirar Yoruba e Quimbundo. Agrilhoada África, beleza selvagem à solta, morte certa no fim de cada deserto. Vida sonhada no recanto de cada selva. Densa, porosa, irrequieta, solidária. Lágrimas vertidas, lá dentro África dos sonhos, lá dentro desastres, ciências violentas, réguas e esquadros em riste, partindo ossos, desconseguindo (sic) paraísos. Ládentrocáfora África. Rasteirinha, sublime, desprezada, o capim em continência eterna aos anjos da morte, rebeldes e senhores, diamantes e sede de continente perdido. Som perdido na bruma, Virunga, Serengeti, Okavango, Luanda, Maputo, Bissau, Sahara, desertos, selvas, olhos perdidos em cidades infinitas de ardor, vida, benditamaldita vida a sonhar o passado e colidir o futuro com o presente.
África dos sonhos, dos presentes, dos futuros incontestados, do ourossangue, Nilo-Vitória, ilhas, arquipélagos meditados. Vilas-arquipélago, rezinguice de um ancião perdido na sombra de um imbondeiro. Perdido num mantra em swahili, esperando a água, imperatriz do vento, suprema criadora, humilde-vacilante-sedutora. Um ancião que é todo África, que desenha as montanhas e as savanas e os rios e as minas e as vidas e os sonhos, que frustra o suspiro de ser. Um sonhador, corre-lhe a kora e o balafon nas veias, respira notas, respira deserto, respira sol, solta melancoliadocicada, é um griot pobre e destituído, mas pobrezinho não, pobre com África nas entrelinhas, à espera de morreviver todos os dias dos sonhos de África que perduram.
Esta é a minha homenagem à prosa de José Luandino Vieira. Que desconsiga ficar desconhecido.

8 de janeiro de 2007

Indecisões (incompleto)

Às vezes, o busílis da questão não é a falta de amigos, de oportunidades ou de afecto. Pelo contrário. Quando o excesso toma conta da tua vida, o problema torna-se tão sério quanto o isolamento... Eu devo ser um dos poucos seres humanos que procura a capacidade de ser insocial, na acepção kantiana. E, tão importante quanto essa busca, gostava de saber explicar aos meus semelhantes que ter a capacidade de consumar algo não implica a sua consumação; o prazer não é o acto solitário, mas o seu processo de constituição. E é, em parte, por isso que a procura do esquecimento interno, anularmo-nos por dentro, é uma resposta condicionada ao excesso de afecto e de opções.
Não sei se procurar a implosão dos laços afectivos que temos será a melhor solução. A mera consideração desta hipótese já é um assomo de solipsismo, mas, ainda assim, a mente resvala. Estas deambulações já deram um filme de Capra, mas não corro o risco de cair naquelas diatribes auto-comiserativas e operáticas; tenho a noção de que é um impulso egoísta e quase niilista. Mas é, também, algo de confortável...não ser vital, apenas agradável, uma presença que não muda nada. Será que não ter laços é ser livre? Será que isso é ser budista? Tenho sérias dúvidas de que um ser humano associal seja digno da sua humanidade.

2 de janeiro de 2007

Resoluções

Que este ano seja um pouco menos duro que o anterior. Que eu tenha menos razões para ficar possesso e mais razões para me alegrar. Que o mundo dê mais voltas no bom sentido que revoltas no pior deles. Que sinta mais comunhão e menos solidão, porque toda a gente está farta de ouvir falar de solidão, pessoas sós, individualismo isolacionista. Mais vontade de sorrir, porque um sorriso não precisa de razões para surgir, apenas precisa de uma faísca.
Que passe menos tempo a pensar nos problemas globais e mais tempo a resolver os problemas locais. Que seja menos teórico e mais pragmático. Que seja mais aberto, compreensivo e paciente. Que seja mais religioso (no melhor sentido da palavra) e menos obtusamente racional. Que viva de forma mais humana e menos maquinal. Que agrida menos e acarinhe mais. Que honre a dignidade humana. Que seja menos verrinoso e sarcástico no trato e mais atento, afectuoso e perspicaz.

Em suma, que seja um ser humano mais digno desse nome, durante este ano de 2007.

...E que o FCP seja campeão.