22 de janeiro de 2007

África-Ifriqiya-Africa proconsularis

Sonhos de África. De cores e texturas e sons e silêncios. Abensonhada (sic) África. Deixar penetrar o cacimbo nas veias, desatar a respirar Yoruba e Quimbundo. Agrilhoada África, beleza selvagem à solta, morte certa no fim de cada deserto. Vida sonhada no recanto de cada selva. Densa, porosa, irrequieta, solidária. Lágrimas vertidas, lá dentro África dos sonhos, lá dentro desastres, ciências violentas, réguas e esquadros em riste, partindo ossos, desconseguindo (sic) paraísos. Ládentrocáfora África. Rasteirinha, sublime, desprezada, o capim em continência eterna aos anjos da morte, rebeldes e senhores, diamantes e sede de continente perdido. Som perdido na bruma, Virunga, Serengeti, Okavango, Luanda, Maputo, Bissau, Sahara, desertos, selvas, olhos perdidos em cidades infinitas de ardor, vida, benditamaldita vida a sonhar o passado e colidir o futuro com o presente.
África dos sonhos, dos presentes, dos futuros incontestados, do ourossangue, Nilo-Vitória, ilhas, arquipélagos meditados. Vilas-arquipélago, rezinguice de um ancião perdido na sombra de um imbondeiro. Perdido num mantra em swahili, esperando a água, imperatriz do vento, suprema criadora, humilde-vacilante-sedutora. Um ancião que é todo África, que desenha as montanhas e as savanas e os rios e as minas e as vidas e os sonhos, que frustra o suspiro de ser. Um sonhador, corre-lhe a kora e o balafon nas veias, respira notas, respira deserto, respira sol, solta melancoliadocicada, é um griot pobre e destituído, mas pobrezinho não, pobre com África nas entrelinhas, à espera de morreviver todos os dias dos sonhos de África que perduram.
Esta é a minha homenagem à prosa de José Luandino Vieira. Que desconsiga ficar desconhecido.

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