15 de dezembro de 2007

Mais uma cimeira. Mais líderes reunidos. E uma imagem permanente (se é que as há): África em ruínas, deserto delapidado. Por cada Konaré, dois Mugabes. Por cada Botswana, dois Chades. E uma certeza cada vez menos desoladora e mais consensual: África não sairá do inferno porque não dá lucro,
África está trancada num limbo. Para uns, é o local do recém-inventado "volunturismo", tão perverso quão necessário. É a África dos pobrezinhos, das crianças de barriga monstruosa, da SIDA e do Ebola; é a África onde as democracias falham, não porque as condições histórico-estruturais impeçam a consolidação de processos formais tendentes à democratização e à criação de "uma" cultura política, mas porque "é uma questão de cultura". Esta é a África dos Live 8; a África das metrópoles hediondas, dos IDH paupérrimos e das bandeiras glorificadoras da invenção do senhor Kalashnikov. Também eu penso neste cenário apocalíptico, quando reflicto acerca de África, É o cenário que nos apresentam, telejornais adentro. Sinistros traficantes de armas, com óculos Rayban que escondem a ganância do olhar e dentes de ouro, um por cada milhar de civis abatidos. Curiosa fronteira: em África, civil é aquele que não tem meio de se defender. Ser civil é ser veículo de um genocídio eventual. Mas duvido que um qualquer miliciano europeu se atrevesse a considerar os Janjaweed militares; milícias, talvez. Entretanto, a esquerdinha europeia mobiliza estes elementos simbólicos, estas imagens sanguinolentas. Este é o outro lado da "Afrimagem": uma terra de oportunidades inalienáveis, a lavrar pelos proponentes do mercado livre e da "mão invisível". É a África do "Fiel Jardineiro" e de "Lord of War", filmes sensacionalistas em que, para não variar, os africanos são remetidos à secundaridade que, parece, é inerente à sua "africanidade". É a África sem estruturas económicas ou oportunidades, que aparece, sem falhar, no fundo de todos os índices que importam e no topo de todos os que ninguém quer ver. Onde a agricultura ainda é de sobrevivência; onde os bosquímanos continuam a ser antropófagos; onde as divisões étnicas continuam a imperar sobre a racionalidade ocidental... que nos trouxe a conferência de Berlim, Auschwitz e o Enola Gay. Sim, porque a nossa moralidade ainda não se descolonizou. É este o limbo em que África desagua: ou se metamorfoseia num parque de diversões para os ocidentais cheios de misericórdia ou se reconfigura numa zona de guerra, a la Reinos Combatentes chineses, onde é preciso que a ONU actue (mas sempre debaixo do guarda-chuva "hard-power"). É um limbo do qual não existe saída evidente.
"Para África, rapidamente e em força", é o que apetece dizer. É a África dos autocolantes da UNICEF, que dão vontade de chorar. Um momento depois, estamos a reparar nas linhas do novo modelo da Nokia.
Agora que a UE vai deixar Lomé para trás, importa reflectir. África está a ficar para trás. Continua a morar nas imaginações colonialistas - porque nós nunca descolonizámos o imaginário, e é isso que faz falta. Só aí veremos que, em África, moram pessoas que não precisam de fazer parte dos relatórios do PNUD, moram quotidianos que não querem fazer parte dos postais da UNICEF, vivem-se vidas que se regem pela obtenção da felicidade.

21 de novembro de 2007

Do riso e da tirania extrovertida

Eu sou introvertido. Aliás, muito introvertido. Prefiro reflectir e contemplar a procurar estímulos externos; não sou dado a explosões emotivas e, ainda menos, a procurar uma comunicação forçada e, a meu ver, histriónica. Mas, ao contrário daquilo que a mole extrovertida assume, não sou tímido ou insocial. A sociabilidade tem pouco a ver com modalidades expressivas, na minha opinião; tem a ver, isso sim, com a capacidade de criar empatia e extender ligações. No entanto, hoje, associa-se, crescentemente, esta capacidade empática com extroversão... Associações automáticas que tendem, com invariável segurança, a deslocar o centro de gravidade societal para aquilo que o grupo maioritário-hegemónico representa como "normal", "saudável" e "genuíno". Esta questão da autenticidade, daquilo que é o "verdadeiro comportamento" continua a estabelecer uma fronteira muito visível entre as pessoas. Mas bom, tergiverso.
Eu sou introvertido e sinto, muitas vezes, a opressão dos extrovertidos. Isto porque constituem uma maioria histericamente ciosa dos seus direitos. Os media e o mercado de trabalho estão organizados em função das suas prioridades, já para não falar dos espaços públicos físicos. Não me refiro ao espaço público como fórum interactivo de linhas isomórficas às da esfera pública; aí, esta dicotomia é dispersa, dada a equalização das formas comunicativas, dada a necessidade de traduzir os enunciados para um "outro" que se pretende receptor. Não: o que me interessa é, realmente, reconstruir as histórias de vida dos introvertidos. Porque a nossa individualidade é, regularmente, apagada; como temos necessidade de reflectir, e, portanto, de não verbalizar, somos qualificados de "estranhos", "calados", "tímidos", "anti-sociais" - normalmente, quem fala muito não pensa no que fala. Esta força policial, inteiramente devotada aos costumes, procura aferir a sociabilidade dos introvertidos. Não pensam, é claro, que a liberdade de expressão contém, em si, a possibilidade da não-expressão; os silenciosos são transportados para um limbo, como se se tornassem estrangeiros. Eu sinto-me, imensas vezes, um estrangeiro, incapaz de comunicar em termos inteligíveis para estas pessoas. É por isso, talvez, que me sinto esgotado, quando sou obrigado a estar, durante muito tempo, em contacto com extrovertidos militantes: não é tanto pela invasão à minha zona de conforto (que se reduz substancialmente, aquando destes recontros), é pela necessidade de pseudo-contacto que têm. É claro que estou a contradizer-me: agrego-os num homo aextrovertus, apesar de ter criticado o seu processo de etiquetagem preconceituosa. Concedo-me a tolerância da inferioridade numérica; é uma estratégia comum.
O pseudo-contacto é uma das facetas mais exasperantes deste conjunto de pessoas. Têm a pulsão do "networking", mas apenas na medida em que incrementar o fluxo de estímulos externos; ora, isto contraria a maior parte das práticas com que me autoconstruo como ser humano. Não os critico pela superficialidade das suas experiências relacionais, mas pela sanha evangélica com que pregam o seu credo. Nem sequer posso tentar demonstrar quão violenta é esta noção de comportamento; atrevo-me a dizer que roça a xenofobia, porque, no sentido de se conceber como original e "boa", tem que me colocar, e a uma série de outros introvertidos, do lado de fora da cerca. A entrada na festa só é permitida a quem se definir pelo exterior. E não posso tentar demonstrar essa violência porque este pensamento outside-the-box cai fora da utensilagem mental (já sei que o Lucien Febvre morreu em 1956, mas bear with me here) hegemónica e total com que foram aparelhados. Precisam de contacto físico e da ilusão de um "networking" intelectual/espiritual/emocional - mas apenas na medida em que esses inputs se traduzirem na certeza de uma superioridade comportamental. Do alto da sua insegurança, olham, altivos, os taciturnos e melancólicos introvertidos, incapazes de manter a velocidade necessária.

Porque, num processo dinâmico e concomitante, a sociedade pós-materialista e pós-industrial foi construída à volta desta massa amorfa de gente, que também foi moldada por cânones cuja compreensão não é difícil, mas cuja aceitação se me afigura impossível. Não há pior iludido que o iludido prosélito; bombardeados por reforços positivos - a criança comunicativa é um filho melhor que uma criança mais ponderada -, massajados nas costas por construções tão idiotas como curiosas - a ostentação de um certo poder como certeza de sucesso, tentam esmagar os que, de fora, questionam a sua narrativa. Sim, porque há uma narrativa extrovertida. Há uma série de mitos criadores da extroversão como panaceia geracional. Eu escolho não engolir baboseiras - o que me vale alguma solidão e alguns desaforos.

Porque não entendo determinado tipo de comportamentos. Não sei exactamente que palavras utilizar nas conversas casuais que, em boa parte, determinam a impressão que deixamos e ocupam parte importante da nossa existência actual. Apenas um introvertido pode entender a sensação de estranheza com que se fica, ao defrontar serviços burocráticas, em que a ritualização é de tal forma permeada por jogos de poder que a única saída aparente é boicotar pela rebeldia. No entanto, se não percebemos como agir ali, em abstracto, como podemos subverter o jogo?
Eu não sei como solucionar este problema. Creio que há um largo espectro de interacções humanas para lá da minha compreensão. E, no entanto, tenho a firme certeza de que não padeço de qualquer distúrbio. Na verdade, creio que a nossa sociedade caminha para a normalização da histrionia performativa.

Mas estas são as reflexões de um introvertido com um feitio muito pouco dócil. Somos todos, na realidade. A diferença é que não gostamos de o declarar em triplicado ou de informar todos os nossos amigos e conhecidos.

9 de outubro de 2007

umuntu ngumuntu ngabantu

O que hei-de fazer? Sou viciado em larachas humanistas e com um cheirinho a hippie (não, não é cheiro a axila mal higienizada). Descobri, há pouco tempo, o Ubuntu. É a nova onda dos burgueses ocidentais que vêem, na "anarquinternet", a solução milagrosas para os seus lapsos freudianos. Um pouco no registo dos Converse Pink-Anarchy.
Enfim, o open-source tem o interesse de ser um movimento paradoxal: no seu âmago, é um fenómeno de tendência popular, feito para as massas; contudo, dado o seu carácter esotérico - ao ponto de se tornar mais um meta-discurso que um movimento tecno-social (assustador, o termo) -, parecia fadado à obscuridade dos quartos húmidos e lúgubres dos chamados geeks, termo engraçado que a sociedade pós-contemporânea, hiper-globalizada e fragmentada, aplica a todos os sacerdotes da segmentação cultural. Uma linha de código aqui, outra ali, e puff!, eis que surge o novo Cálice pythoniano da computação. Na mais pura das ininteligibilidades (palavra, por si mesma, impossível de ler), essa comunidade parecia não compreender que, para ser verdadeiramente open, o movimento precisava de uma abertura total e não imaginada. Ninguém quer escrever linhas de código para abrir uma janela e mandar um mail. Queremos facilidade e consciência tranquila, de não beber a água suja do capitalismo enquanto compramos qualquer coisa on-line na Amazon. O Ubuntu é a face mais temível da ameaça que pende sobre a cabeça da Microsoft e, digo eu, de todas as "brands" monopolistas, conglomerados que deploram o sentido de comunidade inerente a todos os seres humanos. Bom, nem todos.
É um "Linux para seres humanos". Sabem, aquele sistema operativo que apenas umas três ou quatro pessoas, à escala mundial, conseguem utilizar sem recorrer a psicofármacos. Mas, desta feita, revertido do "computês". (Trata-se de uma manobra publicitária tremenda, mas injusta para quem devotou anos à construção de base... ironias, não?)
E, de facto, é mais fácil de usar que o Windows. Dá menos problemas, dá para modificar como entendermos - afinal de contas, é open-source. É, em suma, uma faceta ainda impúbere do século XXI massificado; não requer esforço de aprendizagem para entrar num círculo ilusoriamente esotérico; tem um princípio filosófico artificialmente universalizado (leiam este artigo e digam-me se não é mais um caso de comercialização cultural...); de génese num país exterior ao culturalmente decrépito bloco ocidental (na África do Sul - que, com o Ubuntu, dá corpo digital à sua tentativa de construir um discurso de coesão), tem, atrás de si, um marketing viral estupendo (a imagem de marca é fabulosa; alguns políticos portugueses deviam contratar os consultores de imagem do programa e da empresa); a reputação da comunidade é intocável. É uma mélange deliciosa, convenhamos. O meu portátil Toshiba fica mais bonito com o Ubuntu. E a minha consciência burguesa e votante no BE também.

24 de setembro de 2007

Ele pode escrever os versos mais tristes, mas nós sentimo-los. e isso é que fascina no homo sapiens sapiens

No fundo, meu caro amigo, o Neruda é tudo o que nos resta para iluminar a noite do mundo. Já se faz tarde, tenho que ir viver um bocado.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

Pablo Neruda, comunista nunca arrependido (e que me agride do paraíso dos poetas por postar uma peça traduzida)

23 de setembro de 2007

para onde?

Eu não sabia. Porra, não sabia mesmo. Devia ter levado aquilo a sério, mas fiquei ali, espoliado de iniciativa. Agora, é fácil tirar ilações, racionalizar cada molécula de H2O que exalou da minha pele. Na altura, eu não sabia.

Se calhar, até sabia. Afinal, era fácil intuí-lo, já não era o mesmo, já não era aquela faísca. Já não servia para plantar árvores e ensinar a pescar.

Não. Não. Como? Tenho o dom da presciência? Só sei que passo os dias de olhos encostados às grades da distância, esperando o tempo de esquecer. E achar que poderia ter sabido, e, com isso, ser menos diletante, exaspera-me. Sou um diletante paranóico? Tenho a paranóia, a obsessão de diletar (nem sei se há forma verbal), terá sido essa a razão para ter deixado as minhas costas com a responsabilidade de responder?

Se já sabia, por que razão a minha memória continua a obrigar-me a morar naquele lugar do tempo (ando a viver com seis meses de atraso)? E repito-me, simulando diálogos que não procedem, ficam sempre naquele tom maligno do desconforto. Detesto desconforto. Acho que sofro de paranóia. Repito as palavras, trocando-lhes o timbre, desfiando as sílabas e colorindo a semântica de tons delirantes, tétricos, psicanaliticamente incorrectos. E os gestos? Ah, os gestos. Rituais que me obrigam a recordar montanhas, neves eternas, daquelas onde as palmeiras dos sonhos também não podem viver - elas, que até nas Marianas são capazes de dançar o tango. Estou a fingir. Aliás, as minhas mãos são as fingidoras. Eu ainda penso ali. Ainda estou ali, e algo me diz que vou ter de ganhar a Volta à Memória, muito mais difícil que o Tour ou que a Ultra-Maratona, para já não estar. Para já não ser, se puder. Por enquanto, enceno, em loop, aquele momento em que as cores e as folhas se fundiram com os sons e as metáforas. "O mundo é uma metáfora de outra coisa qualquer?", pergunta o Mario, e o Pablo responde, na minha memória, "é, pois; é uma metáfora da desistência e da redenção". Mas o Pablo só existe na minha cabeça. Ali está ele, com o Eugénio, com o Charles, com o Dylan: observam, inconspícuos, o meu fracasso, a despedida, os olhos e as mãos que se desfazem, dialectos quebrados. Não há coisa mais estrangeira que dois pares de olhos que não se correspondem, mas não há espectáculo mais aterrador que dois pares de mãos em conflito de interesses. Mas foi só uma fracção de segundo, comprimir o azoto e as partículas de saudade que pairavam no ar convocou os deuses da despedida e pronto, adeus. Para onde? Que o adeus tem sempre uma volta, supostamente.

Afinal, talvez soubesse. Mas eu não passo de um fala-barato paranóico. E preciso de fechar os olhos.

8 de agosto de 2007

"We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal."

1. O homem que sonha deixou de vencer. Se essa verdade era auto-evidente, founding fathers, hoje, na Era do Fragmento, dizer que somos todos iguais era bem capaz de obrigar-vos a uma retractação pública. Defensores do politicamente correcto contam espingardas para defender o direito à diferença, queimam efígies em praça pública para acautelar as derivas homogeneizadoras dos estados e das corporações... enquanto que, do outro lado, os politicamente incorrectos tentam, num fiozinho de voz, manifestar a sua apreensão. Afinal de contas, já não temos moral nem ética: existem muitas morais e muitas mais éticas. Temos que cultivar o individualismo, a expressão da unicidade, mas de uma forma compreensível, que todos os outros indivíduos consigam perceber. Sonhar é coisa do passado, temos de procurar sensações.

2. Se alguém lesse este blog, seria crucificado por aquilo que escreverei agora. Ainda bem que ninguém me liga. Acho que a Era do Fragmento afecta muito particularmente as mulheres. Pois, sou um machista encapotado. Mas acho que, se há identidade que entrou, de facto, em crise, é a do género feminino. Afinal, o que é uma mulher, hoje em dia? É aquela cabra que apunhala e manipula todos os colegas de trabalho, sedenta de poder e apreciação (o poder é a testosterona das mulheres...; agora imaginem-nos, testosterona+poder= masculinidade)? Ou aquela que tapa o corpo aleatoriamente, com bocados de tecido cada vez mais esparsos, num ritual que termina em discotecas anónimas (e, no entanto, continuam a tapar os mamilos, coisa que me traz à memória discussões acerca dos ritmos da história, estruturas mentais que demoram a modificar-se...), com manifestações de sexualidade carnavalesca e estranhamente aparentada à percepção feminina do que é o sexo como manifestação de poder masculino? Ou a feminista que queima soutiens, confundindo direito com privilégio e amaldiçoando aquelas massas informes que circundam as gónadas masculinas? Pois é... a sociedade capitalista canibaliza as mulheres, diz que têm distúrbio borderline por inerência de género, aplica-lhes a etiqueta dúplice de sexualmente livre/mãe extremosa, mas nunca reconhece que esse jogo identitário, mais dia menos dia, acabará em... espera lá, já acabou, vejam as crianças over-sexed de hoje, "14 anos que parecem 20", geração morangos cujas mamas cresceram demasiado depressa, tão depressa que me levantam o sobrolho (e nada mais) com desconfiança e reservas acerca do futuro de tão lúbricas e pudibundas inocências. Pois, pudibundas, apesar de over-sexed: um discurso que as espartilha cada vez mais, uma sexualidade cada vez mais formatada, uma capacidade de expressão emocional brutalmente limitada, vocabulário em proporção directa com o tamanho da roupa... Whorff-Sapir, não é? São estas as mulheres de hoje e do hoje+1 (já não há futuro, porque deixou de haver sonhos)? Não sei, talvez. Sei que há mulheres auto-definidas em função dos homens, mimetizando ou contrariando, idolatrando ou desprezando. Ou falam como homens, como a Clara Ferreira Alves, ou falam como estereótipos de feminilidade, Marilyns de trazer por casa. Felizmente, ainda circulam por aí exemplares originais. Mas a originalidade está sobre-avaliada, dizem uns quantos estafermos. "Imaginação ao poder", era o que uns anti-estafermos diziam. A mim já soou melhor a ideia de "mulheres ao poder"; depois da Fátima Felgueiras e da Imelda Marcos, percebi que o género feminino, construído com afinco pela modernidade, ainda pesa nos ombros de muitas alminhas que se esforçam por mostrar quão emancipadas estão.

3. Apesar da ironia, nem tudo é verborreia.

6 de agosto de 2007

O telemóvel vibra. Ecoa, por todo o autocarro, um som metálico: um beat maléfico (porque pobre), e um rapper anónimo que sibila, em voz de comando, verdades inenarráveis sobre a vida no ghetto - porque a vida nos portuguesíssimos e reais bairros de lata é muito pouco "hip-hopável". Ao lado, uma pequena menina, franzina, de ar acabrunhado, com uma saliência ali para os lados da barriga, tenta acompanhar a tensão criada pelo dono do telemóvel, presumido pai de uma criança a quem não estava destinada a pole position. O pai, absorto na construção de um ar bélico, plena de teatralidade e testosterona, grunhe uma série de invectivas que, algures num deserto, um intérprete bosquímano tomaria por cumprimentos afáveis. Mas ali, naquele míssil amarelo, que levita pela Rua da Junqueira, não é um cumprimento - é um convite. Ele aguarda, feito predador. Que algum transeunte mais inconformado tente manifestar o desagrado pelo volume absurdo da música, que já passou pela urbanidade toda, do hip-hop ao reggaeton, passando pelo kuduro progressivo. Na verdade, ele refulge, porque sente o poder da exclusão. Lembro a sugestão de um amigo brasileiro, ele próprio cidadão do mundo: "o poder dos trópicos", que lerei, mas não agora. Agora, leio Cartas de Inglaterra, autor Eça de Queirós, o mesmo Eça que fala da blague, da verve e das espúrias realidades portuguesas - quando não inglesas e europeias, já agora. Já não é o Zé Povinho, não. Agora, é só um indivíduo sem referências, um... puto, que engravidou a namorada e ainda não percebeu que a vida lhe pregou uma rasteira, que ele era um comboio no limiar do descarrilamento. E aquele telemóvel é a vileza do destino a falar, a dizer-lhe que ele bem pode almejar o conflito, a escuridão, a violência. Pode soletrar a palavra "poder" e inscrevê-la a fogo nas veias e nos ventrículos cardíacos. Mas continua a ser um "gajo das barracas". E ele confirma-o, prestável. Uma das Fúrias, mascarada de velha desbragada e desfasada da hiperrealidade em que vive, naquele instante, procura colocá-lo no lugar; recorre ao Eça, usa a ironia. Mas não chega. A ironia só atinge quem vive com ela e também a usa. Se não há sentido de humor, minha pobre figura mitológica... o tiro ricocheteia. E ele ameaça, diz que lhe dá uma "arrochada", esmurra o vidro e olha, lenta mas sofregamente, para a menina. Ela tenta compassar a voz, a expressão, ser, também, uma "gaja das barracas". Pois, penso eu. Tens 17 anos e o mapa do teu destino já só tem gatafunhos, desenhados pela tua própria mão. Estavas cega e mantiveste-te sonolenta. Quiseste acordar, mas era tarde demais. Isto não é o Monopólio, rapariga. Não vives aos círculos ou por ciclos. Andei a tirar um curso de História para o saber. A vida individual é tempo linear e cumulativo: se te enganas, se cometes erros, fatalismos e pessimismos servem de pouco. Também não chegas à casa da partida e recebes dois mil euros de seguida. Se calhar, chegas a casa e levas uma "arrochada". Que o ódio e a violência, acho eu, são armas mais efectivas quando usadas por aqueles em quem confiamos.

13 de maio de 2007

One Art

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

---Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

Elizabeth Bishop

Raio X

Era um olhar imenso. Espraiava-se por curvas e sombras, sem destino aparente. Sem fazer caso do destino, era um olhar vadio. Como quem finge interesse, sorria, levemente. Sim, era um olhar imenso, de montanhas e florestas e glaciares e rios efluvescentes... a íris daquele olhar era um mapa-mundo. Diziam que guardava segredo, que sabia a fórmula secreta de um tesouro indizível. Mas ele, imenso e vadio, apenas sugeria; talvez fosse, penso-o hoje, amuo doce. Uma semi-atracção brincalhona. É que, às vezes, vale mais brincar que fazer de conta. Outras não. E aquele olhar era fingidor; enganava, de um encanto só, as esperanças que pousavam, alcoviteiras, no seu senhorio. Todas sofriam, em silêncio, paixão desafortunada por aquele olhar vagabundo, de movimento perpétuo. Laivos de penumbra sorriam-lhe o rasto, mas nunca se desmanchou; manteve sempre o caminho desalinhado, coerente com a sua fortuna aleatória. Os seus pés, de seda, repousavam na coisa admirada, breve momento, imperceptível jogo de contornos, e zás!, instante nascido e registado nas luzes refractadas das auroras boreais, montadas celestes, bonacheironas mas cáusticas, que transportavam aquele olhar soturno, mas imenso, todo ele imensidade oceanosa, para o mundo da desesperança. Onde ele era as estações, as cores quentes, os gelados de chocolate e as coisas bonitas do amor que, frágeis, se acham perdidas... talvez se percam achadas, dizia ele, matreiro, do alto da sua imensa calma. Era um olhar, só um olhar.

5 de maio de 2007

Um adeus perdido

O problema foi não teres sabido dizer "adeus". Deixaste uma fresta aberta. São esses pequenos e venenosos limiares de esperança que fazem os Homens vacilar, e eu não sou mais que um homem, assim mesmo, letra e força minúscula.
Que tens mais certezas, já o sabíamos. Mas, mesmo assim, também não soubeste dizer "adeus". Colocar um fim, uma barreira. Erguer a voz e dizer "não nos voltaremos a ver, tem uma vida boa, assim-assim ou tanto faz". Não disseste a palavra mágica, que te faria levantar vôo da minha memória e apagar-te-ia. Eu sou um artesão do tempo, não te esqueças. E, como todos os artesãos, sou prisioneiro da matéria-prima. Tempo e memória correm-me nas veias, corres-me tu nas veias, a bem dizer, e "adeus" era o antídoto.
Levantaste-te da cadeira, murmuraste um sorriso, pousaste a mão no meu ombro e, depois... costas com costas, levantei-me também e uma distância começou ali. Pouso o olhar e intuo o fantasma da tua ausência. Foste-te, mas deixaste o contorno; porque não sei soçobrar, insisto. Sei que tentas dizer "adeus" agora, uns milhares de marés depois, mas é tarde. Agora não serve propósito algum, não nos voltarmos a ver é uma mão cheia de nada e mesmo este "adeus" soa a falso.
Invento chaves-mestras, à espera de me enganar. Sabemos que não tens portas que possa abrir. Sabemos que passaria o resto da vida a tentar desacelerar-me até te encontrar.

Há muito que deixámos de falar. Neste instante, mesmo que falássemos, seria eu em monólogo: já não és mais que a projecção da memória que sobrevive ao apagamento.

3 de maio de 2007

Para atravessar contigo o deserto do mundo

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

Sophia de Mello Breyner Andresen

28 de abril de 2007

Os timólatras

Ontem, tive uma experiência absolutamente irreal. Não surreal, porque não posso crer que algo daquele género possa elevar-se acima do real. Talvez subreal. Ou meta-real. Porém, gosto de Umberto Eco (com um cheirinho ao inenarrável Jean Baudrillard) e do seu conceito de irrealidade. Irreal será.
Participei nas gravações do afamado concurso televisivo "Um Contra Todos". Trata-se de um formato sobejamente conhecido: os participantes convertem a sua cultura geral em cifrões e transaccionam esse capital recém-adquirido com a estação televisiva, que, por sua vez, converterá o "espectáculo" em audiência, publicidade e... mais capital, pois claro.

Saí de lá estafado. Pensei que a razão desse cansaço se prendesse com um erro de palmatória: não ter reconhecido, de imediato, a autoria d' "A Anunciação". Fra Angelico, claro. Mas não. Não foi durante a gravação do episódio. Foi durante os intervalos. Ouvir as conversas, sempre polidas e assépticas, dos participantes, alguns deles veteraníssimos daquelas andanças. Discutiram-se estratégias, no melhor (e pior) de Maquiavel e Clausewitz; filosofou-se acerca da ganância, porque uma concorrente perdeu todo o dinheiro ganho; só não se falou dessa conversão sinistra, da mutação cultura - dinheiro.

Duas palavras assomaram ao meu espírito, fadado às abstracções e à visão hiper-crítica. Timolatria e Plutofilia. Palavrões? Talvez. Podia dizer que aquela amostra (altamente significativa, pela diversidade etária e, talvez, social) da população portuguesa quer é dinheiro, são uns gananciosos. Mas não, prefiro conceitos que exprimem, de forma mais eficaz, a gravidade da situação. Porque é uma situação extremamente grave.

Quero ser do tempo em que o conhecimento era um bem a ser aplicado em prol do outro e da sociedade. Quero ser do tempo em que o trabalho era um contrato social, com a ênfase no social.
Não é isso que se observa. A liderança televisiva de "Um Contra Todos", e, antes dele, "Quem Quer Ser Milionário", entre milhentos outros, é um sintoma da instrumentalização da cultura, tornada via para a obtenção de dinheiro. Nem sequer poder, apenas cifrões. Pergunta simples: a cultura desvirtuada e performativa ainda é cultura? Ali, naquele local perfeitamente descaracterizado, tido como estúdio, mas que identifiquei como templo a Andy Warhol e Gordon Gekko, percebi que não.

1. Observar aquele espectáculo é revelador. Falo do espectáculo exterior ao estúdio. Marx era, de facto, um lírico. As massas alienam-se de livre vontade. Explicar que o capitalismo oitocentista (existe, a meu ver, um retorno à selvajaria do séc. XIX, Reagan, Thatcher, Sarkozy e Sócrates, depois de um pós-guerra humanizador) é uma instituição total, um sistema englobador e atrofiador do livre-arbítrio e da liberdade de expressão não vale de nada. Nem mesmo simplificar a mensagem, chegar ao ponto de dizer "O dinheiro que vos corre nas veias está a entupir-vos o cérebro!".
Como é possível manter uma posição de ortodoxia absoluta, seja ela marxista, leninista, estalinista, maoísta ou trotskista, depois de observar a contínua auto-alienação dos indivíduos? Ainda há "classes"? Ainda há "burgueses" que se apropriam dos meios de produção? Tenho as minhas dúvidas. Nesta sociedade pós-moderna e pós-contemporânea, essas identidades e processos negociais associados já não têm a validade de outrora. Ficar, dias a fio, num estúdio, a tentar ganhar dinheiro pela prostituição da cultura não é atribuível somente a uma imposição sistémica. Basta pensar na atribuição de valor aos papéis que todos desempenhamos na estrutura económico-política. Quem é valioso? Quem é a pessoa mais realizada? Aquele que ganha mais dinheiro. E, na maior parte das vezes, nunca problematizamos esta relação. Contudo, se pegarmos neste postulado e isolarmos as suas premissas, a fragilidade do argumento é, por demais, evidente. Passamos da atribuição de um valor comercial, material ao trabalho, como retorno/recompensa pela valia do desempenho, à justaposição do capital e do desempenho. Nisto, Marx tinha razão. Não só há um fetiche da mercadoria, como há um fetiche do capital. No resto, creio que foi estruturalista antes do tempo e desprezou a capacidade individual de funcionar fora do sistema. É possível, e não é preciso sermos eremitas hippies nem idolatrarmos o Chávez ou o Fidel.

2. A timolatria é uma doença. A vida humana mediada pelo dinheiro é como um ecossistema em entropização acelerada. No "Um Contra Todos", todo aquele rito litúrgico procede em torno do anonimato arquetípico, o gajo sem cara que, por 15 minutos, usa a cultura que lhe foi dada pelo sistema de ensino massificado e tenta ganhar dinheiro, para ascender socialmente. Ainda são pessoas que estão ali? Era eu um indivíduo, dotado de alteridade? Digo apenas que nunca tinha reparado que os concorrentes anónimos têm todos a mesma altura. Há estrados para equalizar as alturas. Cheira-me a distopia orwelliana em potência (mas eu, também, tenho a mania de ver coisas onde elas não estão e de falar sem ser ouvido). Eles são os "Todos", a massa amorfa e sedenta de uma oportunidade de mostrar que sabe. "Self-made men" pós-contemporâneos.

27 de março de 2007

No te mueras, aúnque yo soy un muerto en tu corazón

Afinal, nem tudo é em vão. Obtive resposta, tenho as voltas algo trocadas. Mas os versos de Neruda não podem ser apagados. Seria sacrilégio.

Amiga, no te mueras.
Óyeme estas palabras que me salen ardiendo,
y que nadie diría si yo no las dijera.

Amiga, no te mueras.

Yo soy el que te espera en la estrellada noche.
El que bajo el sangriento sol poniente te espera.

Miro caer los frutos en la tierra sombría.
Miro bailar las gotas del rocío en las hierbas.

En la noche al espeso perfume de las rosas,
cuando danza la ronda de las sombras inmensas.

Bajo el cielo del Sur, el que te espera cuando
el aire de la tarde como una boca besa.

Amiga, no te mueras.

Yo soy el que cortó las guirnaldas rebeldes
para el lecho selvático fragante a sol y a selva.
El que trajo en los brazos jacintos amarillos.
Y rosas desgarradas. Y amapolas sangrientas.

El que cruzó los brazos por esperarte, ahora.
El que quebró sus arcos. El que dobló sus flechas.

Yo soy el que en los labios guarda sabor de uvas.
Racimos refregados. Mordeduras bermejas.

El que te llama desde las llanuras brotadas.
Yo soy el que en la hora del amor te desea.

El aire de la tarde cimbra las ramas altas.
Ebrio, mi corazón. bajo Dios, tambalea.

El río desatado rompe a llorar y a veces
se adelgaza su voz y se hace pura y trémula.

Retumba, atardecida, la queja azul del agua.
Amiga, no te mueras!

Yo soy el que te espera en la estrellada noche,
sobre las playas áureas, sobre las rubias eras.

El que cortó jacintos para tu lecho, y rosas.
Tendido entre las hierbas yo soy el que te espera!

Pablo Neruda

12 de março de 2007

mi corazón es un viejo
de islas encantadas

una solitud
de ilusiones aisladas

vacila por el mundo olvidado
como duro sueño de inquietud

pero no se queda desnudado,
que es viejo, no enfermo

y no puede ahogarse en tristeza
pues que se encantó

es todavia posíble
que este viejo encante la muerte
con su sonrisa

mi corazón es un viejo vacilante
con muchas voces elevadas

24 de fevereiro de 2007

Religio

Já não há ilusões.

31 de janeiro de 2007

O Outro

Quem és tu, estranho? Quem és, alma penada? És uma projecção lugúbre dos meus preconceitos? Por que razão falas nesse linguajar idiota? És amarelo, agora és preto, tornas-te, de repente, vermelho. És sempre um silencioso escravo das minhas definições, da minha ocidentalidade imperialista. Não te podes defender das minhas chicotadas, eu sou o teu carrasco, o teu escultor, o agente da tua perda. Arrancar-te-ei os olhos, tirar-te-ei a individualidade que jamais tiveste. És um selvagem, maltrapilho incivilizado e rústico. Apenas consegues perviver na memória do exótico, como uma aberração demasiado próxima. Tu não choras nem ris, és um farrapo de rocha insubstante. A tua cultura é o meu campo de batalha. A tua linguagem primitiva é o tijolo com que ergo o mausoléu da tua morte. Espera. Não. Tu nunca chegaste a nascer. Não tens religião, és um sinal ortográfico insignificante, na minha marcha imperial, rumo às trevas do progresso. Pisoteio os teus rituais com a minha peripatetice, porque as tuas categorias mentais nem sequer conseguem defender-se. Quem és tu, que és tu, o que serias tu, triste sombra? Vagueias, nomádico, serpenteante, sem passado, presente ou futuro, sempiterno poluidor do logos. Qual é a tua razão? Define-te. Ou és uma verdade ou és uma fúria. Não, espera. És apenas uma projecção. És somente as pulsões maléficas, tanáticas, quiméricas, de que desistimos há tempos que tentamos esquecer. Tu és o que nós fomos. És, nunca foste nem serás. E, por isso, violo-te com o meu olhar esfacelador.

22 de janeiro de 2007

África-Ifriqiya-Africa proconsularis

Sonhos de África. De cores e texturas e sons e silêncios. Abensonhada (sic) África. Deixar penetrar o cacimbo nas veias, desatar a respirar Yoruba e Quimbundo. Agrilhoada África, beleza selvagem à solta, morte certa no fim de cada deserto. Vida sonhada no recanto de cada selva. Densa, porosa, irrequieta, solidária. Lágrimas vertidas, lá dentro África dos sonhos, lá dentro desastres, ciências violentas, réguas e esquadros em riste, partindo ossos, desconseguindo (sic) paraísos. Ládentrocáfora África. Rasteirinha, sublime, desprezada, o capim em continência eterna aos anjos da morte, rebeldes e senhores, diamantes e sede de continente perdido. Som perdido na bruma, Virunga, Serengeti, Okavango, Luanda, Maputo, Bissau, Sahara, desertos, selvas, olhos perdidos em cidades infinitas de ardor, vida, benditamaldita vida a sonhar o passado e colidir o futuro com o presente.
África dos sonhos, dos presentes, dos futuros incontestados, do ourossangue, Nilo-Vitória, ilhas, arquipélagos meditados. Vilas-arquipélago, rezinguice de um ancião perdido na sombra de um imbondeiro. Perdido num mantra em swahili, esperando a água, imperatriz do vento, suprema criadora, humilde-vacilante-sedutora. Um ancião que é todo África, que desenha as montanhas e as savanas e os rios e as minas e as vidas e os sonhos, que frustra o suspiro de ser. Um sonhador, corre-lhe a kora e o balafon nas veias, respira notas, respira deserto, respira sol, solta melancoliadocicada, é um griot pobre e destituído, mas pobrezinho não, pobre com África nas entrelinhas, à espera de morreviver todos os dias dos sonhos de África que perduram.
Esta é a minha homenagem à prosa de José Luandino Vieira. Que desconsiga ficar desconhecido.

8 de janeiro de 2007

Indecisões (incompleto)

Às vezes, o busílis da questão não é a falta de amigos, de oportunidades ou de afecto. Pelo contrário. Quando o excesso toma conta da tua vida, o problema torna-se tão sério quanto o isolamento... Eu devo ser um dos poucos seres humanos que procura a capacidade de ser insocial, na acepção kantiana. E, tão importante quanto essa busca, gostava de saber explicar aos meus semelhantes que ter a capacidade de consumar algo não implica a sua consumação; o prazer não é o acto solitário, mas o seu processo de constituição. E é, em parte, por isso que a procura do esquecimento interno, anularmo-nos por dentro, é uma resposta condicionada ao excesso de afecto e de opções.
Não sei se procurar a implosão dos laços afectivos que temos será a melhor solução. A mera consideração desta hipótese já é um assomo de solipsismo, mas, ainda assim, a mente resvala. Estas deambulações já deram um filme de Capra, mas não corro o risco de cair naquelas diatribes auto-comiserativas e operáticas; tenho a noção de que é um impulso egoísta e quase niilista. Mas é, também, algo de confortável...não ser vital, apenas agradável, uma presença que não muda nada. Será que não ter laços é ser livre? Será que isso é ser budista? Tenho sérias dúvidas de que um ser humano associal seja digno da sua humanidade.

2 de janeiro de 2007

Resoluções

Que este ano seja um pouco menos duro que o anterior. Que eu tenha menos razões para ficar possesso e mais razões para me alegrar. Que o mundo dê mais voltas no bom sentido que revoltas no pior deles. Que sinta mais comunhão e menos solidão, porque toda a gente está farta de ouvir falar de solidão, pessoas sós, individualismo isolacionista. Mais vontade de sorrir, porque um sorriso não precisa de razões para surgir, apenas precisa de uma faísca.
Que passe menos tempo a pensar nos problemas globais e mais tempo a resolver os problemas locais. Que seja menos teórico e mais pragmático. Que seja mais aberto, compreensivo e paciente. Que seja mais religioso (no melhor sentido da palavra) e menos obtusamente racional. Que viva de forma mais humana e menos maquinal. Que agrida menos e acarinhe mais. Que honre a dignidade humana. Que seja menos verrinoso e sarcástico no trato e mais atento, afectuoso e perspicaz.

Em suma, que seja um ser humano mais digno desse nome, durante este ano de 2007.

...E que o FCP seja campeão.