O problema foi não teres sabido dizer "adeus". Deixaste uma fresta aberta. São esses pequenos e venenosos limiares de esperança que fazem os Homens vacilar, e eu não sou mais que um homem, assim mesmo, letra e força minúscula.
Que tens mais certezas, já o sabíamos. Mas, mesmo assim, também não soubeste dizer "adeus". Colocar um fim, uma barreira. Erguer a voz e dizer "não nos voltaremos a ver, tem uma vida boa, assim-assim ou tanto faz". Não disseste a palavra mágica, que te faria levantar vôo da minha memória e apagar-te-ia. Eu sou um artesão do tempo, não te esqueças. E, como todos os artesãos, sou prisioneiro da matéria-prima. Tempo e memória correm-me nas veias, corres-me tu nas veias, a bem dizer, e "adeus" era o antídoto.
Levantaste-te da cadeira, murmuraste um sorriso, pousaste a mão no meu ombro e, depois... costas com costas, levantei-me também e uma distância começou ali. Pouso o olhar e intuo o fantasma da tua ausência. Foste-te, mas deixaste o contorno; porque não sei soçobrar, insisto. Sei que tentas dizer "adeus" agora, uns milhares de marés depois, mas é tarde. Agora não serve propósito algum, não nos voltarmos a ver é uma mão cheia de nada e mesmo este "adeus" soa a falso.
Invento chaves-mestras, à espera de me enganar. Sabemos que não tens portas que possa abrir. Sabemos que passaria o resto da vida a tentar desacelerar-me até te encontrar.
Há muito que deixámos de falar. Neste instante, mesmo que falássemos, seria eu em monólogo: já não és mais que a projecção da memória que sobrevive ao apagamento.
5 de maio de 2007
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário