13 de maio de 2007

Raio X

Era um olhar imenso. Espraiava-se por curvas e sombras, sem destino aparente. Sem fazer caso do destino, era um olhar vadio. Como quem finge interesse, sorria, levemente. Sim, era um olhar imenso, de montanhas e florestas e glaciares e rios efluvescentes... a íris daquele olhar era um mapa-mundo. Diziam que guardava segredo, que sabia a fórmula secreta de um tesouro indizível. Mas ele, imenso e vadio, apenas sugeria; talvez fosse, penso-o hoje, amuo doce. Uma semi-atracção brincalhona. É que, às vezes, vale mais brincar que fazer de conta. Outras não. E aquele olhar era fingidor; enganava, de um encanto só, as esperanças que pousavam, alcoviteiras, no seu senhorio. Todas sofriam, em silêncio, paixão desafortunada por aquele olhar vagabundo, de movimento perpétuo. Laivos de penumbra sorriam-lhe o rasto, mas nunca se desmanchou; manteve sempre o caminho desalinhado, coerente com a sua fortuna aleatória. Os seus pés, de seda, repousavam na coisa admirada, breve momento, imperceptível jogo de contornos, e zás!, instante nascido e registado nas luzes refractadas das auroras boreais, montadas celestes, bonacheironas mas cáusticas, que transportavam aquele olhar soturno, mas imenso, todo ele imensidade oceanosa, para o mundo da desesperança. Onde ele era as estações, as cores quentes, os gelados de chocolate e as coisas bonitas do amor que, frágeis, se acham perdidas... talvez se percam achadas, dizia ele, matreiro, do alto da sua imensa calma. Era um olhar, só um olhar.

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