24 de janeiro de 2006

X marks the spot


Acabo de ver um dos grandes filmes dos anos 90 e pergunto-me: terá a nossa estrutura intelectual acompanhado o desenvolvimento tecnológico? Minto. A minha pergunta, de facto, é: se Malcolm Little, vulgarmente conhecido por Malcolm X, fosse vivo, qual seria a sua opinião acerca das relações inter-raciais?
Há várias razões, nem todas de ordem pessoal, que me levam a escolher Malcolm X, em detrimento de Martin Luther King Jr. ou Mohandas Karamchad "Mahatma" Gandhi. É uma figura famosa, mas pouco conhecida e consensual: quase todos conhecem o seu nome, mas nem todos viram o magnífico filme de Spike Lee. Quase todos estão familiarizados com a agressividade do X, mas poucos entendem a significância da incógnita matemática, tornada declaração de consciência histórica, por parte do homem negro. Do Homem, aliás: porque, como começa a ser costumeiro (reconheço-o em mim), o nome precede o conteúdo, nesta era de listagens, história-evento-data e enumeração de factóides=cultura. Malcolm X, pela sua importância no Civil Rights Movement, pela sua posição beligerante e activista (palavra que começa a cair em desuso), merece ser lembrado. Já não pela sua doutrina, mas pela sua atitude e dedicação.
"O nosso príncipe - o nosso Príncipe negro e brilhante". Foram estas palavras emocionadas que a voz inconfundível de Ossie Davis, colosso da negritude em Hollywood, imortalizaram, na elegia a Malcolm X, aquando do seu funeral, há 41 anos. Quarenta e um anos.
E volto a cismar: se Malcolm estivesse vivo, qual seria a sua posição? Que diria? Talvez voltasse a unir-se à Nação do Islão, essa recrudescência identitária que, ainda hoje, apregoa a Supremacia Negra. Sim, talvez voltasse a falar do "mal intrínseco" de toda a raça caucasiana e preconizasse o uso de armas para defesa pessoal dos negros americanos, afro-americanos: o número de associações neo-nazis e pró-arianas continua a ser preocupante. Talvez, com o seu carisma incontestável, intenso, febril, voltasse a pregar a violncia.
Mas acho que não. Acredito que, nesta época de incompreensão, nestes tempos de partidarização sibilina e sibilante, a sua voz ergueria uma barreira contra o racismo; a sua figura circunspecta e altiva seria um farol, um sinal de que nenhum ser humano é mais fraco porque muda de opinião.Pelo contrário: Malcolm X, pelo seu exemplo (mais do que pelas suas palavras), ensina-nos o valor de um espírito vigoroso, inquieto, missionário. Teve de descobrir, em Meca, que os seres humanos não têm cor, têm cores; que o credo de Muhammad não se limita a uma tez; que a bondade e a dignidade não são apanágio de uma raça. É esse Malcolm X, peregrino redimido, que admiro. Porque teve a coragem de admitir o erro e porque, numa época em que a crispação subia de tom (os movimentos supremacistas negros começavam a ebulir), ousou ser igualitário.
Na verdade, talvez devêssemos usar todos um X, como apelido. Nesta era de globalizações, estamos, subrepticia e lentamente, a desenraizar-nos, a perder referências e referenciais. Por isso mesmo, vale a pena lembrar aqueles cuja vibração perdura, como um eco dos valores que defenderam. Malcolm X é um desses mitos.

22 de janeiro de 2006

É a água, estúpido!

Os combustíveis voltaram a subir. Mais um capítulo da saga politizada que pretende esvaziar os bolsos dos contribuintes, segundo alguns. Comecem, primeiro, por desvelar a vergonha que sucede na Rua do Ouro, 27. A sede do Banco de Portugal, onde um determinado concidadão recebe um salário anual que ascende aos trezentos mil euros anuais. Falo, é claro, do governador do BP, Vítor Constâncio. Sim, aquele sujeito munido de óculos que, ciclicamente, surge à frente de uma parede decorada com azulejos e vitupera o funcionalismo público, acusando-o de inviabilizar o bom funcionamento do Estado Português. Mas tergiverso. Aquilo que me traz a estas paragens é algo de muito maior magnitude. É a cegueira selectiva do povo português, orgulhosamente ocidental.
Antes de mais, há que dizê-lo: sei bem que o aumento do imposto sobre os combustíveis nada teve de estrutural; foi um imperativo imposto pelo Orçamento de Estado, esse fantasma que paira, todos os anos, como uma Morte indecisa sobre as nossas cabeças. Gostaria, contudo, de relacionar esta decisão governamental com um fenómeno da longa duração, que, há uns meses, aflorou ao nosso cérebro colectivo: a escassez de água. Ou melhor, a ideia da sua escassez.
Queixam-se os consumidores, os prestadores de serviços; os taxistas, os universitários, os varredores, os maquinistas, os camionistas, os analistas, até os chupistas. Os combustíveis NÃO podem subir; é um crime lesa-majestade (sendo a majestade a pulsão consumista). Talvez este artigo conscencialize alguns: Portugal exagera no consumo de combustíveis e na emissão de poluentes; o nosso país não respeito o Protocolo de Quioto, que ratificou, e, por isso, pode vir a sofrer sanções significativas e prejudiciais à propalada recuperação da economia.
Temos carros a mais, amigos. Temos carros a mais, andamos de autocarro a menos, a nossa economia é hiperdependente das energias não-renováveis e todos nós conhecemos aqueles mapas que, ano após ano, são apresentados, pela Visão, como "Portugal daqui a 50 anos - um deserto invadido pelo mar". Urge mudar, e não apenas por nós próprios.
Porque, quando a Península Ibérica enfrentar décadas de seca extrema, Espanha não vai ter complacências, e incorreremos no mesmo problema que afecta o Próximo-Oriente: o combate pela água. E isto não é uma diatribe esquerdista e alarmista: é uma realidade perfeitamente concebível. Se não se tomarem medidas equilibradas e sustentáveis, a Europa meridional vai sofrer o mesmo destino que os vizinhos magrebinos e árabes: seca extrema, escassez de água e beligerância acentuada. E, como de costume, os nosso vizinhos do eixo Paris-Berlim-Londres vão encolher os ombros e enfiar-se em Estrasburgo, tentando decidir. Ou decidir o que decidir.
Por isso, concordo perfeitamente com o aumento dos combustíveis. O alarmismo parte, na verdade, de quem equipara a situação actual a 1973; a falta de horizontes é a de quem pretende utilizar a energia hidro-eléctrica para dar um presente envenenado à população do Baixo Sabor (um dos últimos rios não apresados da Europa e, portanto, de um valor ambiental inestimável). É triste que alguns sujeitos estejam disfarçados de humanistas, enquanto autorizam, intelectualmente, a destruição do nosso património ambiental. Que se aumente o preço: isso funcionará como dissuasor do consumo excessivo, obrigará as pessoas a parar para pensar e, talvez, a ler uns quantos artigos ou, até, livros que explicam a definição de desenvolvimento sustentável.
A água é um direito humano. É, igualmente, o único direito ambiental que não está explicitamente consagrado (ver aqui, p. 28) e que, por isso mesmo, é mais frágil e necessitado de protecção activa. Menos de 10% das reservas aquíferas mundiais são potáveis. Apenas uma fracção da população mundial tem acesso à quantidade diária de água prescrita pela OMS; nessa fracção, poucas pessoas, fora do mundo ocidental, têm acesso a água de boa qualidade. Os ecossistemas oceânicos, lagunares e fluviais são essenciais para a sustentação do planeta e muito sensíveis ao aumento da poluição, tanto hídrica como atmosférica. O consumo de combustíveis e subsequente emissão de poluentes (em que os automóveis privados têm um quinhão considerável) é o contribuinte acusável. Cada português tem de se mentalizar deste contexto, desta fragilidade ecológica e de parar com o cliché de que os ambientalistas só querem travar as liberdades individuais e o progresso (seja lá o que isso fôr, na pós-modernidade). Talvez, desse modo, não vão para a TSF vociferar. Talvez devam guardar a energia para guardar as últimas reservas de água e lençóis freáticos que, mais década, menos década, voltarão a ser bens de incomensurável valor. Na verdade, estamos mais dependentes da Natureza que nunca.