
Acabo de ver um dos grandes filmes dos anos 90 e pergunto-me: terá a nossa estrutura intelectual acompanhado o desenvolvimento tecnológico? Minto. A minha pergunta, de facto, é: se Malcolm Little, vulgarmente conhecido por Malcolm X, fosse vivo, qual seria a sua opinião acerca das relações inter-raciais?
Há várias razões, nem todas de ordem pessoal, que me levam a escolher Malcolm X, em detrimento de Martin Luther King Jr. ou Mohandas Karamchad "Mahatma" Gandhi. É uma figura famosa, mas pouco conhecida e consensual: quase todos conhecem o seu nome, mas nem todos viram o magnífico filme de Spike Lee. Quase todos estão familiarizados com a agressividade do X, mas poucos entendem a significância da incógnita matemática, tornada declaração de consciência histórica, por parte do homem negro. Do Homem, aliás: porque, como começa a ser costumeiro (reconheço-o em mim), o nome precede o conteúdo, nesta era de listagens, história-evento-data e enumeração de factóides=cultura. Malcolm X, pela sua importância no Civil Rights Movement, pela sua posição beligerante e activista (palavra que começa a cair em desuso), merece ser lembrado. Já não pela sua doutrina, mas pela sua atitude e dedicação.
"O nosso príncipe - o nosso Príncipe negro e brilhante". Foram estas palavras emocionadas que a voz inconfundível de Ossie Davis, colosso da negritude em Hollywood, imortalizaram, na elegia a Malcolm X, aquando do seu funeral, há 41 anos. Quarenta e um anos.
E volto a cismar: se Malcolm estivesse vivo, qual seria a sua posição? Que diria? Talvez voltasse a unir-se à Nação do Islão, essa recrudescência identitária que, ainda hoje, apregoa a Supremacia Negra. Sim, talvez voltasse a falar do "mal intrínseco" de toda a raça caucasiana e preconizasse o uso de armas para defesa pessoal dos negros americanos, afro-americanos: o número de associações neo-nazis e pró-arianas continua a ser preocupante. Talvez, com o seu carisma incontestável, intenso, febril, voltasse a pregar a violncia.
Mas acho que não. Acredito que, nesta época de incompreensão, nestes tempos de partidarização sibilina e sibilante, a sua voz ergueria uma barreira contra o racismo; a sua figura circunspecta e altiva seria um farol, um sinal de que nenhum ser humano é mais fraco porque muda de opinião.Pelo contrário: Malcolm X, pelo seu exemplo (mais do que pelas suas palavras), ensina-nos o valor de um espírito vigoroso, inquieto, missionário. Teve de descobrir, em Meca, que os seres humanos não têm cor, têm cores; que o credo de Muhammad não se limita a uma tez; que a bondade e a dignidade não são apanágio de uma raça. É esse Malcolm X, peregrino redimido, que admiro. Porque teve a coragem de admitir o erro e porque, numa época em que a crispação subia de tom (os movimentos supremacistas negros começavam a ebulir), ousou ser igualitário.
Na verdade, talvez devêssemos usar todos um X, como apelido. Nesta era de globalizações, estamos, subrepticia e lentamente, a desenraizar-nos, a perder referências e referenciais. Por isso mesmo, vale a pena lembrar aqueles cuja vibração perdura, como um eco dos valores que defenderam. Malcolm X é um desses mitos.