29 de novembro de 2006

Little Miss Sunshine: pérola indie

Há filmes assim...com uma ternura murmurante, um tom tão suave que nos deixa impreparados para a sagacidade crítica que o sustenta. Little Miss Sunshine, pérola da cena "indie" americana, sátira desavergonhada à maquina homogeneizadora a que se convencionou chamar "american way of life", é uma daquelas delícias cinematográficas que conquista a audiência por algo mais do que um texto magnífico, uma fotografia sublime ou um conjunto de performances excepcionais. Não, é algo de muito mais subreptício e subliminar. Talvez seja o tom levemente sarcástico (próprio do "looser", como é referido numa hilariante troca de farpas entre Greg Kinnear e Steve Carell (o novo Bill Murray, mas com um subtexto que o agregará, eternamente, ao Daily Show)), sempre adocicado pela ternura com que os realizadores e o argumentista evocam a peculiaridade de cada personagem. Sempre com sensibilidade, nunca desprezando a inteligência da audiência.
...Um filme que se refere a Marcel Proust e a Nietzsche apelará sempre ao meu snobismo de alcova. Mais ainda quando essa mesma película inclui a Toni Colette, uma das melhores actrizes da actualidade.
Só não percebo uma coisa: por que razão é que os críticos afirmam que os núcleos emocionais do filme são as personagens de Toni Colette e Alan Arkin? Para mim, é mais que evidente a centralidade da VW Pão-de-Forma Amarela, decrépita e familiar. É uma "looser" idiossincrática, em permanente dissonância. Num filme em que a individualidade é glorificada, que outro veículo poderia ter sido usado?

19 de novembro de 2006

Porque sim, porque é giro e tem graça.

The Book of Cool. Decorem este nome. É a coisa mais engraçada e interessante dos últimos tempos. Enquanto alguém fica com o sistema nervoso esfrangalhado, por causa de uma Assembleia de Representantes, há quem veja mais longe. Há quem veja a qualidade estranha de "coolness" nas maiores bizarrias. Brincar com uma caneta deixou de ser obsessivo-compulsivo. Agora, é "groovy". Ele é truques de barman (que resultam, para variar), ele é freestyle asiático, ele é um chorrilho de pequenas maravilhas da destreza humana.
É este mundo que gosto de esboçar. Um mundo em "technicolor", sempiternamente cómico e adorável.

...Já agora, dêem-me o Book of Cool pelo Natal. Agradecia.

Futurologia com palavras caras

Ainda há quem acredite na possibilidade de salvação do planeta. E não é o Al Gore. Não obstante quaisquer verdades inconvenientes, o BoingBoing diz que a New Scientist agarrou em dezenas de cientistas, deu-lhes uma pancada na medula oblongata (aprendi esta a ver o Rush Hour) e esses inefáveis guardiães do conhecimento agarraram numa bola de cristal (feita de matéria negra, sub-quarks e outras aberrações da física), efectuaram uma série de computações quânticas e, cá para fora, saíram previsões para os próximos 50 anos de desenvolvimento científico. Uns falam da Teoria de Tudo, outros do Genoma Humano...enfim, uma imensidão de brincadeiras.

18 de novembro de 2006

Às vezes, é o tempo que nos engana...

i carry your heart with me (i carry it in
my heart) i am never without it(anywhere
i go you go,my dear; and whatever is done
by only me is your doing,my darling)
i fear
no fate (for you are my fate,my sweet)
i want no world (for beautiful you are my world,my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you

here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life; which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart

i carry your heart(i carry it in my heart)

e.e. cummings

Um, dois, três...e puf, fez-se o chocapic

Acabei de ler O Monge que Vendeu o seu Ferrari, da autoria de Robin Sharma, (pertencente ao clube de Osho, Deepak Chopra e Sri Chinmoy),reeditado pela Sábado Como é costume, em livros de auto-ajuda, soube-me a pouco.
Há que dizê-lo: não sou o maior fã deste tipo de literatura. Mas também não pertenço ao clube dos que desprezam, recalcitram contra ou invectivam estes pequenos e esquecíveis opúsculos.
Divirto-me, simplesmente, a desconstruir, e reconstruir, a amálgama de filosofia asiática, pós-modernidade e cultura popular...ou pop-culture, como agora se diz...que compõe a maior parte da literatura apelidada de "auto-ajuda".
E continuo a ficar surpreendido. O que levará estes autores a encontrar um sentido tão claro, discernível e evidente para o mundo que a única pergunta, também clara e evidente, que me apraz fazer, é esta: será a Humanidade tão inana e frustre, na sua imensa história, que ninguém se lembrou de tão iluminadas verdades? É bem verdade que Galileu, Newton e Darwin andavam ocupados com questão algo mais imperscrutáveis e de efeito menos evidente...mas, ainda assim, é um enigma. Tenho, portanto, uma teoria dicotómica: ou cada autor auto-iluminado, renascido, "yogizado" e orientalizado procura atestar a completa insuficiência intelectual da Humanidade ou, de facto, a mesma Humanidade sofre de uma depressão colectiva, que a estrutura editorial global procura extirpar.
Um amigo dizia-me, há uns dias, a respeito do "Monge": "O que me faz confusão é ele afirmar que se fizeres isto, isto e mais isto, serás feliz". Não podia estar mais de acordo. Algo que se nota, trate-se de um registo ficcional ou ensaístico, é a total falta de vivacidade do mundo em que se inscrevem os conceitos expostos e insonsamente papagueados pela maioria destes autores. Há uns séculos, uns quantos sujeitos, esotéricos e lun
lunáticos, andavam à procura da Pedra Filosofal. Agora, muitos gurus procuram, numa ânsia universalista altamente suspeita, revelar o seu segredo para uma vida felicíssima e, só por acaso, homogeneizadíssima. Mas a cultura de massas é assim mesmo...um movimento impassível em direcção à Disneyland. A nós, que ficamos no insterstício da cultura popular e erudita, cabe o papel de rir, sem escarnecer, de todo este espectáculo. E, de soslaio, ir dando uma olhadela nos manuais de bem-viver, bem-sonhar, bem-agir e bem-pensar. Há quem já tenha parodiado, de forma açucarada e bem-intencionada, esta tendência. Há quem procure discernir razões muito profundas para esta necessidade de conforto. Eu, se estivesse com atenção, diria que o "renascimento mediático" das religiões não é apenas televisivo ou digital; para um ocidental, experimentar um satori não decorre de vergastadas oferecidas por um enfurecido mestre zen, obcecado pela iluminação repentina dos seus discípulos. Estar sentado num sofá, enquanto se lê, não um Taizen Deshimaru, mas um Robin Sharma, é mais confortável. Sentem-se desconfortáveis com esta perversão do diálogo Interfaith? Bem-vindos ao século XXI.

12 de novembro de 2006

Vincent

Há peças que nos transportam para qualquer lado especial. O meu amigo Vincent é um desses magos dotados de sabedoria tão arcana, tão inexprimível, que se convencionou nomear de "talento". É fácil esquecer que o "talento" é um fardo pesado, comporta uma aprendizagem que nunca termina e que, muitas vezes, acaba por consumir aqueles que o têm. Como consumiu o Vincent, o Basquiat, o Kerouac e tantos outros. Talvez fosse esse o seu destino.

7 de novembro de 2006

Antropologia do Zé Povinho

Querem convencer-me de que Portugal não é um país que faz rir? Descontando, é claro, as macacadas parlamentares, ainda há muito país para conhecer.
Pela estrada fora, ainda se encontra muita gente castiça, gente que nos faz nascer um sorriso, não de escárnio, nem de ironia, mas um sorriso leve, como que a segredar uma cumplicidade entre portugueses, tantas vezes de costas voltadas, mas sempre com vontade de brandir o copo e trautear uma cançoneta tradicional, enquanto se emborca só mais uma mini e se vê mais um jogo da bola.
Por isso, presto a minha homenagem à Liga dos Últimos. Um programa de antropologia, que tem, como objectos, o Homo Sapiens Futebolicus e o Doutor Bitaites, esse repositório oracular eminentemente português. Meia hora de deleite comédico, sempre afectuoso. Porque o Artista do Cavez é, assim mesmo, um artista da graçola.
Melhor que tudo isso: vejam os Highlights 2005 (parte 1 e parte 2). Entradas de fazer inveja ao Petit, um treinador que não consegue fazer-se entender aos jogadores, alguém que foi "promovido de paralelo a calhau" (pago um jantar a quem souber decifrar esta...), um novo nome para uma bebida, o deserto do Ceará que fica ali para os lados de França, um "q" de cedilha...enfim, pérolas. E jornalistas com um sentido de humor infindável.

Portugal português. E é assim que eu gosto dele.

6 de novembro de 2006

Certidão de Óbito

O Maio de 68 morreu.

Já não há Sorbonne sitiada. Agora, luta-se contra o CPE. Mas, em França, os ânimos andam sempre exaltados. Mesmo que o Muro tenha caído, as tendências Xiaopingianas tenham vencido, e a China seja, agora, um dragão industrial (que ainda funciona a carvão), eles continuam, todos revoltados e de punho no ar, a exigir aquilo que lhes apraz. Tanto trabalho...para quê? Mais vale ficar sentado numa certa esplanada de Lisboa. Pois claro. É melhor que sejam as vanguardas a determinar o pensamento de quem devia...bem....pensar. Ou, então, talvez seja preferível aderir a movimentos psitacistas e mentecaptos. Sempre é melhor que tomar consciência.
Sim, o Maio de 68 morreu. Vi-o hoje, com os meus olhos. Vi-o, ao enfrentar a apatia reinante numa certa Faculdade, a qual, ao que parece, cultiva o livre-pensamento e a discussão intelectual. Percebi-o, ao ter de esgrimir argumentos com uma cidadã, despreocupada e indolente, cuja única justificação para a apatia é, pelos vistos, um niilismo sensaborão, daqueles que se aprendem a ver os Morangos com Açúcar. O Mundo é, de facto, um Teatro.
E queres saber, caro leitor, a razão pela qual desci ao ponto de esgrimir argumentos com alguém cujo alcance intelectual não lhe deveria permitir a entrada na Universidade? Fi-lo para defender os direitos dela. Fi-lo porque, numa certa Faculdade, bastião incontestado da esquerda intelectual e bem-falante, o laxismo deixou de ser objecto teórico e passou a ser estado de espírito.
Porque ter de andar atrás dos meninos universitários, pedindo-lhes, encarecidamente, que participem na gestão da sua Faculdade, já que a sua participação é a última barreira que impede a comercialização da educação, e ainda levar com caras impúberes, mas já habilitadas à contorção muscular que dá lugar a um trejeito de enfado, não é, de todo, a minha noção de um bom dia. Só faltava andar a distribuir flyers e a colar cartazes com a frase "FAÇAM-ME UM INCOMENSURÁVEL FAVOR: DEFENDAM OS VOSSOS DIREITOS". Haja capacidade de encaixe.

É que, ao que parece, participar no Órgão Máximo de Gestão da Faculdade, onde estudam, é uma actividade de pouco prestígio e muito trabalho.
...Três reuniões por ano. Ordens de trabalhos com dois pontos. Uma frequência, por parte dos alunos, que rondou, no ano transacto, 10% dos representantes.
"Dá tanto trabalho... Participar no processo democrático dá imenso trabalho, é uma maçada tão chata, tão pouco Geração Y. Quase nem dá tempo de ir comprar os óculos aviador da RayBan. Imagina só perder os Morangos com Açúcar...Como é que decorávamos os tiques linguísticos que nos dão uma aura de Ignorantes-Cool? Ah não. Não pode ser. Deixamos essa coisa de participação cívica e consciência individual para ti, humilde e mal vestido plebeu". Juro que os olhos daquela cantina, daquele bar e daquela esplanada debitaram estas mesmas palavras, enquanto me ouviam falar de uma certa Assembleia de Representantes de uma certa Faculdade.
Enquanto estudante de História (dois pecados mortais numa única palavra - voltarei a este tema), não deveria, nunca, traçar paralelos, mas parece que, nesta sociedade mediática, só com alarmismos esganiçados é que lá vamos: lembram-se da Belle Époque? Melhor, lembram-se dos Roaring 20's? Pois. Viu-se no que deu. (Claro que reconheço a idiocia deste paralelo (instrumento analítico que, em História, é perfeitamente absurdo), mas mesmo assim, é engraçado)

"Pouvoir à l'Imagination", bradavam os revoltados de há trinta e oito anos. Hoje, alguns são como o Cohn-Bendit, institucionalizados; outros são apenas frustrados reaccionários ou revolucionários, todos muito radicais e muito pós-modernos. Mas há pior do que ser institucionalizado ou frustrado. Muito pior que isso é ser apático. A ignorância não traz felicidade; consagra, apenas, a ilusão do escape. E, mesmo que se convoquem manifestações, boicotes e acções de protesto, há gente que nunca chegará a ter consciência.
Um slogan para vocês, carneiros indigentes: Se pensas por ti, pensas mal. Em vez de pensares, tens de ser igual. (E sim, trata-se de uma referência a um dichote de mau gosto; mas o mau gosto, às vezes, surte efeito) A quê? À manada de amibas cerebral e socialmente atrofiadas que, todos os anos, saem, às pazadas, das Universidades portuguesas, esperando um emprego e uma vida onde a iniquidade dá lucro e a vulgaridade é a bitola do sucesso. Claro que o mundo, essa meta-realidade (para Jean Baudrillard, ou a minha interpretação dele), acaba por dar-lhes uma desilusão imensa; para bem de nós, que escolhemos o desconforto da consciência e da empatia, ainda vale a pena saber que o mundo é multitexturado, multicolor e multitudo.
Elitização do Ensino Universitário? Cá para mim, é Estupidificação do Ensino Universitário. Quantos mais burros, analfabetos funcionais - estarrece-me, profundamente, a iliteracia de alunos inscritos em Letras e Ciências Sociais - e inconscientes formos, mais tenrinha a nossa carne se torna. É que, sabem, o cérebro que pensa é duro de roer. O que não pensa é de digestão fácil.

Ao contrário do que pode parecer, não estou revoltado. Longe disso. Creio, porque conheço pessoas de muitíssimo valor, que querem saber, que procuram algo mais que um canudo e uma vidinha tranquila e apagada, que a minha Faculdade é, de facto, um bastião da pluralidade e do livre-pensamento. Benditos sejam. Aos outros: até podia dizer-vos onde fica a fila para a máquina de encher chouriços, mas vocês já lá estão. E não tenho pena nenhuma.

5 de novembro de 2006

Richard Dawkins vs Evangélico Alucinado

Longe de concordar com todas as posições de Richard Dawkins, nomeadamente acerca da fenomenologia religiosa, há qualquer coisa de muito, muito estranho em todo o fenómeno da religião mediatizada, verifique-se ele no Brasil ou nos Estados Unidos. Aqui está uma prova. Para ver e reflectir acerca dos limites da loucura, controlada ou iludida.

4 de novembro de 2006

Pergunta-Resposta-Infinitude

Onde está a resposta?

Sim. Onde está a resposta? Não é na música do Marvin Gaye. Nem nos livros de auto-ajuda. Portanto, onde é que está? Estará naqueles olhares que se trocam, cúmplices, a caminho de uma cadeira de uma esplanada de um café obscuro, onde não queremos ficar...mas tivemos medo, porque a confusão, a angústia metem medo, e nós não podemos senti-lo nas veias, esse pobre e desastrado proscrito. O nosso destino bifurcou-se naquele olhar: uma dimensão nova nasceu, em que nem tudo foi estéril. A confusão e a dignidade deixaram de fazer sentido a sós, apenas em conjunto. Mas...espera. É num olhar, num tímido e opaco olhar, que está a resposta? Mas tu reconheces, sequer, a existência de uma pergunta? Tens apenas a ilusão da certeza, um controlo ténue sobre a tua vida, e crês que um olhar basta?
Bastaria. Se escolhesses não ceder ao encanto de me manter, em suspenso, à espera de algo que, sabemo-lo perfeitamente, não acontecerá, bastaria. Mas gostamos de jogar, e é o jogo que nos perderá. Seja poker, blackjack, roleta russa ou um genérico e desinteressante jogo da vida. Naquele olhar, naquele dia, foram duas vidas bifurcadas em sete. Como? Um e um não dá sete? Que sabes tu de matemática, que reconheces tu no rigor aritmético, para te iludires na segurança dos números? Cederei à tua provocação. Duas vidas divididas dão, pelo menos, seis: são os destinos obscuros que traçámos, a partir daquele olhar que terminou num café forasteiro. São milhões, as vidas que desprezámos. Mas prefiro manter as coisas simples, para te dar uma bofetada de luva branca. A simplicidade lima as arestas de tudo. Mas falta algo, pensas tu. Falta o degrau final. Falta o passo que me levou ao sete. Um e um sete. É essa a resposta? Não. Demasiado fácil...demasiado simples para quem voga num mar de confusão, tão denso e respeitável que já te convenceu de que não é um mar, mas um homem, em quem vais ficar imersa pela eternidade fora.
Já te afogaste há muito. E é essa a razão pela qual não percebes porque é que um mais um dá nove. Duas vidas que são uma sopa de estrelas a apagar-se. Cada olhar desviado é um destino que fica ali, prostrado e moribundo.
Mas só perceberás o meu subterfúgio quando já for tarde. Uma vida somada a outra nunca fará duas, nem três, nem sete, nem mesmo uma potência incomensurável. Uma vida somada a outra cria outro Universo, dá-se, ali mesmo, um Big Bang. O mundo pára e a cadeia de acontecimentos que nos levou a cafés separados, com companhias separadas e olhares separados, deixa, pura e simplesmente, de existir. É um Universo, lembras-te? Mas é um Universo onde só há espaço para duas galáxias, que dançam até brilhar. Até haver espaço para o medo, para a confusão e para todas as vidas que se viveram, perderam, sonharam e aconteceram, no espaço subtil daquele olhar que ambos recusámos. Naquele instante, naquele preciso momento, em que uma vida somada a outra se tornou sete e depois um infinito. Onde está a resposta? Se pudesses parar o tempo, pausar aquele elo que ligou, ligeiramente, os teus olhos aos meus, e se lhe pudesses ver a cor, sentir a textura, aspirar o aroma, saboreá-lo, conhecerias a resposta. E a pergunta. E tudo.