Há filmes assim...com uma ternura murmurante, um tom tão suave que nos deixa impreparados para a sagacidade crítica que o sustenta. Little Miss Sunshine, pérola da cena "indie" americana, sátira desavergonhada à maquina homogeneizadora a que se convencionou chamar "american way of life", é uma daquelas delícias cinematográficas que conquista a audiência por algo mais do que um texto magnífico, uma fotografia sublime ou um conjunto de performances excepcionais. Não, é algo de muito mais subreptício e subliminar. Talvez seja o tom levemente sarcástico (próprio do "looser", como é referido numa hilariante troca de farpas entre Greg Kinnear e Steve Carell (o novo Bill Murray, mas com um subtexto que o agregará, eternamente, ao Daily Show)), sempre adocicado pela ternura com que os realizadores e o argumentista evocam a peculiaridade de cada personagem. Sempre com sensibilidade, nunca desprezando a inteligência da audiência....Um filme que se refere a Marcel Proust e a Nietzsche apelará sempre ao meu snobismo de alcova. Mais ainda quando essa mesma película inclui a Toni Colette, uma das melhores actrizes da actualidade.
Só não percebo uma coisa: por que razão é que os críticos afirmam que os núcleos emocionais do filme são as personagens de Toni Colette e Alan Arkin? Para mim, é mais que evidente a centralidade da VW Pão-de-Forma Amarela, decrépita e familiar. É uma "looser" idiossincrática, em permanente dissonância. Num filme em que a individualidade é glorificada, que outro veículo poderia ter sido usado?
Sem comentários:
Enviar um comentário