18 de novembro de 2006

Um, dois, três...e puf, fez-se o chocapic

Acabei de ler O Monge que Vendeu o seu Ferrari, da autoria de Robin Sharma, (pertencente ao clube de Osho, Deepak Chopra e Sri Chinmoy),reeditado pela Sábado Como é costume, em livros de auto-ajuda, soube-me a pouco.
Há que dizê-lo: não sou o maior fã deste tipo de literatura. Mas também não pertenço ao clube dos que desprezam, recalcitram contra ou invectivam estes pequenos e esquecíveis opúsculos.
Divirto-me, simplesmente, a desconstruir, e reconstruir, a amálgama de filosofia asiática, pós-modernidade e cultura popular...ou pop-culture, como agora se diz...que compõe a maior parte da literatura apelidada de "auto-ajuda".
E continuo a ficar surpreendido. O que levará estes autores a encontrar um sentido tão claro, discernível e evidente para o mundo que a única pergunta, também clara e evidente, que me apraz fazer, é esta: será a Humanidade tão inana e frustre, na sua imensa história, que ninguém se lembrou de tão iluminadas verdades? É bem verdade que Galileu, Newton e Darwin andavam ocupados com questão algo mais imperscrutáveis e de efeito menos evidente...mas, ainda assim, é um enigma. Tenho, portanto, uma teoria dicotómica: ou cada autor auto-iluminado, renascido, "yogizado" e orientalizado procura atestar a completa insuficiência intelectual da Humanidade ou, de facto, a mesma Humanidade sofre de uma depressão colectiva, que a estrutura editorial global procura extirpar.
Um amigo dizia-me, há uns dias, a respeito do "Monge": "O que me faz confusão é ele afirmar que se fizeres isto, isto e mais isto, serás feliz". Não podia estar mais de acordo. Algo que se nota, trate-se de um registo ficcional ou ensaístico, é a total falta de vivacidade do mundo em que se inscrevem os conceitos expostos e insonsamente papagueados pela maioria destes autores. Há uns séculos, uns quantos sujeitos, esotéricos e lun
lunáticos, andavam à procura da Pedra Filosofal. Agora, muitos gurus procuram, numa ânsia universalista altamente suspeita, revelar o seu segredo para uma vida felicíssima e, só por acaso, homogeneizadíssima. Mas a cultura de massas é assim mesmo...um movimento impassível em direcção à Disneyland. A nós, que ficamos no insterstício da cultura popular e erudita, cabe o papel de rir, sem escarnecer, de todo este espectáculo. E, de soslaio, ir dando uma olhadela nos manuais de bem-viver, bem-sonhar, bem-agir e bem-pensar. Há quem já tenha parodiado, de forma açucarada e bem-intencionada, esta tendência. Há quem procure discernir razões muito profundas para esta necessidade de conforto. Eu, se estivesse com atenção, diria que o "renascimento mediático" das religiões não é apenas televisivo ou digital; para um ocidental, experimentar um satori não decorre de vergastadas oferecidas por um enfurecido mestre zen, obcecado pela iluminação repentina dos seus discípulos. Estar sentado num sofá, enquanto se lê, não um Taizen Deshimaru, mas um Robin Sharma, é mais confortável. Sentem-se desconfortáveis com esta perversão do diálogo Interfaith? Bem-vindos ao século XXI.

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