4 de novembro de 2006

Pergunta-Resposta-Infinitude

Onde está a resposta?

Sim. Onde está a resposta? Não é na música do Marvin Gaye. Nem nos livros de auto-ajuda. Portanto, onde é que está? Estará naqueles olhares que se trocam, cúmplices, a caminho de uma cadeira de uma esplanada de um café obscuro, onde não queremos ficar...mas tivemos medo, porque a confusão, a angústia metem medo, e nós não podemos senti-lo nas veias, esse pobre e desastrado proscrito. O nosso destino bifurcou-se naquele olhar: uma dimensão nova nasceu, em que nem tudo foi estéril. A confusão e a dignidade deixaram de fazer sentido a sós, apenas em conjunto. Mas...espera. É num olhar, num tímido e opaco olhar, que está a resposta? Mas tu reconheces, sequer, a existência de uma pergunta? Tens apenas a ilusão da certeza, um controlo ténue sobre a tua vida, e crês que um olhar basta?
Bastaria. Se escolhesses não ceder ao encanto de me manter, em suspenso, à espera de algo que, sabemo-lo perfeitamente, não acontecerá, bastaria. Mas gostamos de jogar, e é o jogo que nos perderá. Seja poker, blackjack, roleta russa ou um genérico e desinteressante jogo da vida. Naquele olhar, naquele dia, foram duas vidas bifurcadas em sete. Como? Um e um não dá sete? Que sabes tu de matemática, que reconheces tu no rigor aritmético, para te iludires na segurança dos números? Cederei à tua provocação. Duas vidas divididas dão, pelo menos, seis: são os destinos obscuros que traçámos, a partir daquele olhar que terminou num café forasteiro. São milhões, as vidas que desprezámos. Mas prefiro manter as coisas simples, para te dar uma bofetada de luva branca. A simplicidade lima as arestas de tudo. Mas falta algo, pensas tu. Falta o degrau final. Falta o passo que me levou ao sete. Um e um sete. É essa a resposta? Não. Demasiado fácil...demasiado simples para quem voga num mar de confusão, tão denso e respeitável que já te convenceu de que não é um mar, mas um homem, em quem vais ficar imersa pela eternidade fora.
Já te afogaste há muito. E é essa a razão pela qual não percebes porque é que um mais um dá nove. Duas vidas que são uma sopa de estrelas a apagar-se. Cada olhar desviado é um destino que fica ali, prostrado e moribundo.
Mas só perceberás o meu subterfúgio quando já for tarde. Uma vida somada a outra nunca fará duas, nem três, nem sete, nem mesmo uma potência incomensurável. Uma vida somada a outra cria outro Universo, dá-se, ali mesmo, um Big Bang. O mundo pára e a cadeia de acontecimentos que nos levou a cafés separados, com companhias separadas e olhares separados, deixa, pura e simplesmente, de existir. É um Universo, lembras-te? Mas é um Universo onde só há espaço para duas galáxias, que dançam até brilhar. Até haver espaço para o medo, para a confusão e para todas as vidas que se viveram, perderam, sonharam e aconteceram, no espaço subtil daquele olhar que ambos recusámos. Naquele instante, naquele preciso momento, em que uma vida somada a outra se tornou sete e depois um infinito. Onde está a resposta? Se pudesses parar o tempo, pausar aquele elo que ligou, ligeiramente, os teus olhos aos meus, e se lhe pudesses ver a cor, sentir a textura, aspirar o aroma, saboreá-lo, conhecerias a resposta. E a pergunta. E tudo.

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