The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.
Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.
I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.
---Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.
Elizabeth Bishop
13 de maio de 2007
One Art
Raio X
Era um olhar imenso. Espraiava-se por curvas e sombras, sem destino aparente. Sem fazer caso do destino, era um olhar vadio. Como quem finge interesse, sorria, levemente. Sim, era um olhar imenso, de montanhas e florestas e glaciares e rios efluvescentes... a íris daquele olhar era um mapa-mundo. Diziam que guardava segredo, que sabia a fórmula secreta de um tesouro indizível. Mas ele, imenso e vadio, apenas sugeria; talvez fosse, penso-o hoje, amuo doce. Uma semi-atracção brincalhona. É que, às vezes, vale mais brincar que fazer de conta. Outras não. E aquele olhar era fingidor; enganava, de um encanto só, as esperanças que pousavam, alcoviteiras, no seu senhorio. Todas sofriam, em silêncio, paixão desafortunada por aquele olhar vagabundo, de movimento perpétuo. Laivos de penumbra sorriam-lhe o rasto, mas nunca se desmanchou; manteve sempre o caminho desalinhado, coerente com a sua fortuna aleatória. Os seus pés, de seda, repousavam na coisa admirada, breve momento, imperceptível jogo de contornos, e zás!, instante nascido e registado nas luzes refractadas das auroras boreais, montadas celestes, bonacheironas mas cáusticas, que transportavam aquele olhar soturno, mas imenso, todo ele imensidade oceanosa, para o mundo da desesperança. Onde ele era as estações, as cores quentes, os gelados de chocolate e as coisas bonitas do amor que, frágeis, se acham perdidas... talvez se percam achadas, dizia ele, matreiro, do alto da sua imensa calma. Era um olhar, só um olhar.
5 de maio de 2007
Um adeus perdido
O problema foi não teres sabido dizer "adeus". Deixaste uma fresta aberta. São esses pequenos e venenosos limiares de esperança que fazem os Homens vacilar, e eu não sou mais que um homem, assim mesmo, letra e força minúscula.
Que tens mais certezas, já o sabíamos. Mas, mesmo assim, também não soubeste dizer "adeus". Colocar um fim, uma barreira. Erguer a voz e dizer "não nos voltaremos a ver, tem uma vida boa, assim-assim ou tanto faz". Não disseste a palavra mágica, que te faria levantar vôo da minha memória e apagar-te-ia. Eu sou um artesão do tempo, não te esqueças. E, como todos os artesãos, sou prisioneiro da matéria-prima. Tempo e memória correm-me nas veias, corres-me tu nas veias, a bem dizer, e "adeus" era o antídoto.
Levantaste-te da cadeira, murmuraste um sorriso, pousaste a mão no meu ombro e, depois... costas com costas, levantei-me também e uma distância começou ali. Pouso o olhar e intuo o fantasma da tua ausência. Foste-te, mas deixaste o contorno; porque não sei soçobrar, insisto. Sei que tentas dizer "adeus" agora, uns milhares de marés depois, mas é tarde. Agora não serve propósito algum, não nos voltarmos a ver é uma mão cheia de nada e mesmo este "adeus" soa a falso.
Invento chaves-mestras, à espera de me enganar. Sabemos que não tens portas que possa abrir. Sabemos que passaria o resto da vida a tentar desacelerar-me até te encontrar.
Há muito que deixámos de falar. Neste instante, mesmo que falássemos, seria eu em monólogo: já não és mais que a projecção da memória que sobrevive ao apagamento.
Que tens mais certezas, já o sabíamos. Mas, mesmo assim, também não soubeste dizer "adeus". Colocar um fim, uma barreira. Erguer a voz e dizer "não nos voltaremos a ver, tem uma vida boa, assim-assim ou tanto faz". Não disseste a palavra mágica, que te faria levantar vôo da minha memória e apagar-te-ia. Eu sou um artesão do tempo, não te esqueças. E, como todos os artesãos, sou prisioneiro da matéria-prima. Tempo e memória correm-me nas veias, corres-me tu nas veias, a bem dizer, e "adeus" era o antídoto.
Levantaste-te da cadeira, murmuraste um sorriso, pousaste a mão no meu ombro e, depois... costas com costas, levantei-me também e uma distância começou ali. Pouso o olhar e intuo o fantasma da tua ausência. Foste-te, mas deixaste o contorno; porque não sei soçobrar, insisto. Sei que tentas dizer "adeus" agora, uns milhares de marés depois, mas é tarde. Agora não serve propósito algum, não nos voltarmos a ver é uma mão cheia de nada e mesmo este "adeus" soa a falso.
Invento chaves-mestras, à espera de me enganar. Sabemos que não tens portas que possa abrir. Sabemos que passaria o resto da vida a tentar desacelerar-me até te encontrar.
Há muito que deixámos de falar. Neste instante, mesmo que falássemos, seria eu em monólogo: já não és mais que a projecção da memória que sobrevive ao apagamento.
3 de maio de 2007
Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei
Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso
Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo
Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento
Sophia de Mello Breyner Andresen
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei
Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso
Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo
Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento
Sophia de Mello Breyner Andresen
Subscrever:
Mensagens (Atom)