9 de outubro de 2007

umuntu ngumuntu ngabantu

O que hei-de fazer? Sou viciado em larachas humanistas e com um cheirinho a hippie (não, não é cheiro a axila mal higienizada). Descobri, há pouco tempo, o Ubuntu. É a nova onda dos burgueses ocidentais que vêem, na "anarquinternet", a solução milagrosas para os seus lapsos freudianos. Um pouco no registo dos Converse Pink-Anarchy.
Enfim, o open-source tem o interesse de ser um movimento paradoxal: no seu âmago, é um fenómeno de tendência popular, feito para as massas; contudo, dado o seu carácter esotérico - ao ponto de se tornar mais um meta-discurso que um movimento tecno-social (assustador, o termo) -, parecia fadado à obscuridade dos quartos húmidos e lúgubres dos chamados geeks, termo engraçado que a sociedade pós-contemporânea, hiper-globalizada e fragmentada, aplica a todos os sacerdotes da segmentação cultural. Uma linha de código aqui, outra ali, e puff!, eis que surge o novo Cálice pythoniano da computação. Na mais pura das ininteligibilidades (palavra, por si mesma, impossível de ler), essa comunidade parecia não compreender que, para ser verdadeiramente open, o movimento precisava de uma abertura total e não imaginada. Ninguém quer escrever linhas de código para abrir uma janela e mandar um mail. Queremos facilidade e consciência tranquila, de não beber a água suja do capitalismo enquanto compramos qualquer coisa on-line na Amazon. O Ubuntu é a face mais temível da ameaça que pende sobre a cabeça da Microsoft e, digo eu, de todas as "brands" monopolistas, conglomerados que deploram o sentido de comunidade inerente a todos os seres humanos. Bom, nem todos.
É um "Linux para seres humanos". Sabem, aquele sistema operativo que apenas umas três ou quatro pessoas, à escala mundial, conseguem utilizar sem recorrer a psicofármacos. Mas, desta feita, revertido do "computês". (Trata-se de uma manobra publicitária tremenda, mas injusta para quem devotou anos à construção de base... ironias, não?)
E, de facto, é mais fácil de usar que o Windows. Dá menos problemas, dá para modificar como entendermos - afinal de contas, é open-source. É, em suma, uma faceta ainda impúbere do século XXI massificado; não requer esforço de aprendizagem para entrar num círculo ilusoriamente esotérico; tem um princípio filosófico artificialmente universalizado (leiam este artigo e digam-me se não é mais um caso de comercialização cultural...); de génese num país exterior ao culturalmente decrépito bloco ocidental (na África do Sul - que, com o Ubuntu, dá corpo digital à sua tentativa de construir um discurso de coesão), tem, atrás de si, um marketing viral estupendo (a imagem de marca é fabulosa; alguns políticos portugueses deviam contratar os consultores de imagem do programa e da empresa); a reputação da comunidade é intocável. É uma mélange deliciosa, convenhamos. O meu portátil Toshiba fica mais bonito com o Ubuntu. E a minha consciência burguesa e votante no BE também.