29 de outubro de 2006

Web 2.0 I

A era da partilha começou. Eu sei, eu sei: trata-se de uma hipérbole, de um optimismo exacerbado, de uma fábula. Mas os factos são claros. O ataque cerrado e despudorado dos cães de caça das editoras, de uma desonestidade intelectual e cívica que roça os limites da urbanidade, acabou por não surtir o efeito esperado. Pelo contrário: no seu furor repressivo, os arautos da cultura-consumo demonstram, de forma inequívoca, que existem alternativas. Digo-o frontalmente, porque um blog corporiza esse movimento ameaçador e hediondo (para os defensores da formatação sociocultural, pelo menos): a Web 2.0.
Antes de reflectir um pouco acerca deste movimento inovador e renovador, preciso de esclarecer um ponto. A designação "2.0" não é, na minha opinião, estritamente correcta, se a entendermos de forma quantitativa. A Web não se tornou "2.0" pelo aumento do número de websites, nem pelo aumeno exponencial da largura de banda. Não é esse o objectivo; trata-se, pelo contrário, de exprimir uma mudança na interacção dos agentes virtuais, uma integração mais completa e consolidada de todos os utilizadores na rede. Parece-me que "Web 2.0" expressa um processo de mutação, em que a enfatização deixa de estar centrada na "transmissão" unilateral e "disponibilização" da informação, e passa a emanar da "partilha", ou seja, da ascensão do indivíduo enquanto sujeito criativo e criador. Inspirador, não é? Ameaçador também.
Estou longe de conhecer todas as ramificações deste movimento, cujas consequências e significância ainda não conhecemos em plenitude; contudo, a relevância do YouTube, da WikiPedia e do Blogger já pertencem ao senso comum. Em Portugal, alguns serviços de e para a comunidade, como o Digger e o Flickr, ainda não são muito conhecidos. Todos eles assentam em duas premissas: a partilha livre da informação/produção artística e cultural e uma forma de sociabilidade altamente integrada. Estamos muito longe do estereotípico utilizador da Net, passivo e vergado ao jargão informático. Na maior parte das vezes, os utilizadores "2.0" são activos, produzem conhecimento (nem sempre fiável, é certo) a alta velocidade e, na característica mais importante, abrem perspectivas, criam canais de discussão. Formam, em suma, uma "inteligência colectiva". O MySpace e o Hi5 são duas pontes, ainda a meio caminho entre a Web do mIRC, do ICQ e a Web do Flickr. O indivíduo produz e partilha cultura, ou seja, torna-se agente cultural nessa condição, e tem, pela primeira vez na história da cultura de massas, instrumentos que lhe permitem expressar-se. Esta quebra de condicionantes é, também, o fim de um tabu: os movimentos grass-roots já não podem ser eficazmente filtrados pelos media. Ou será que podem? Essa questão permanecerá em escrutínio, creio-o, durante largos anos. "Pão e circo", como alguém disse, continua a ser um dichote muito astuto.
Todo este palavreado acerca de "cultura", "agente cultural", esbarra num obstáculo...dois, aliás. O primeiro prende-se com o ordenamento jurídico internacional. Os direitos de autor, essa expressão tão firmemente aviltada pelos ditos cães-de-caça das editoras, viram esta trapalhada toda do avesso. Até ao advento da Creative Commons. O segundo é, simplesmente, o facto de que, se um grande conjunto de indivíduos se recusar a pactuar com a economicização da cultura, haverá muita gente a vociferar impropérios e a apelidar esses ditos "não-cooperantes" (que, ao contrário de hippies idiotas, não advogam nenhum tipo de "cultura alternativa", outro nome para "contra-cultura") de "anarcas", "terroristas intelectuais", "piratas" e outras nomenclaturas que não parecem estranhas a ninguém que pense nestas coisas. Os media tradicionais, pois claro. E toda a gente que lucra com o monopólio da informação pelos jornais, televisões, conglomerados (alguém conhece dois sujeitos chamados Rupert Murdoch e Ted Turner?) e opinion-makers (Michael Moore e associados: a simpatia política é absolutamente secundária). Qual a resposta a este domínio implacável? A Web 2.0, na minha opinião. Websites como o OpenDemocracy e o WorldChanging. Atenção: ninguém pode afirmar, na posse de todas as suas faculdades mentais, que se opõe à existência de jornais, revistas, televisões e todas as formas de media tradicional. Mas esse monopólio tem de acabar, e parece que isso está em vias de suceder.

Sem comentários: