5 de fevereiro de 2006

Globalização desglobalizada I

Aconteceu. A globalização começou, finalmente, a ricochetear. A publicação de vários cartoons difamatórios da figura de Muhammad, profeta de Allah, causou uma hecatombe moralista, um retorno momentâneo à pureza original do Islão, à proibição canónica de representar o Profeta. Podia ter sido nos Estados Unidos, essa superpotência com 40 milhões de pobres. Mas foi na Dinamarca, um dos países com maior Índice de Desenvolvimento Humano da Europa e do mundo. Foi na Escandinávia, em que as minorias estão razoavelmente integradas. Como pequeno factóide, até há um clube semita na Suécia.
Mas o mundo islâmico não se compadece com essas atenuantes. É, lembremo-lo, um mundo em decomposição acelerada, em que a globalização funciona como factor disjuntor e propulsor de fenómenos radicais, integristas, [inserir panóplia de clichés aplicados ao mundo islâmico]. Gaza é um microcosmos demonstrativo desse efeito pernicioso do multiculturalismo: transmitida, diariamente, ao mundo, Gaza já não é uma cidade. É um ícone, tal como Muhammad.
Pois é: vivemos no pós-modernismo, esse chavão que preconiza o relativismo absoluto, a aceitação de todas as culturas mundiais, a inexistência de planos supra-naturais. Pois. No mundo académico, esse palavreado resulta. Nas ruas de Beirute, Damasco, Bagdad, Teerão, Islamabad ou Muscat, nada disso faz sentido: continua a ser o "Nós" muçulmano, injustiçado e humilhado desde 1922, contra o "Eles" ocidental, essa panóplia de escumalha que não hesita em profanar a memória do Profeta. Sabem aquilo que é irónico? Aqueles que pisam a bandeira da Dinamarca são aqueles que mais desrespeitam os preceitos corânicos: são aqueles que entendem a jihad como um dos "cinco pilares" fundamentais do Islão, em vez de a considerarem, como os admiráveis sufis, uma luta interior. Mártires, pois sim. Constituem o equivalente islâmico das velhas beatas que corporizavam o cristianismo de aldeia em Portugal, há 50 anos.
Não deixo, ainda assim, de sentir uma repulsa extrema pelo conteúdo de alguns dos ditos cartoons. Para além de não primarem pela qualidade pictórica ou simbólica, são icónicos de um crescente desrespeito e subversão do multiculturalismo, com a justaposição de ideais perfeitamente contemporâneos, decorrentes da mutação história sofrida pelo Islão, a uma figura com quase 1500 anos de história. Era desnecessário e basta olhar para um nosso conterrâneo, Rafael Bordalo Pinheiro, para compreender que o humor pode ser controverso, mas não boçal.

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