24 de novembro de 2005

"Antes, o que era bom valia. Hoje, o bom é ironia"

Eu sou um dos milhares de utentes diários dos transportes colectivos lisboetas. E, todos os dias, enfrento caras desconhecidas, afectos anónimos, raivas surdas. Todos os dias oiço os silêncios de quem trabalha. Vejo, todos os dias, guerrilhas de egos. Quotidianamente, tomo partidos, julgo, conjugo o verbo "odiar" demasiadas vezes e o verbo "amar" com decrescente convicção.

Eu também baixo a voz, quando exprimo algo de que me envergonho. Também sou um daqueles profetas da diversidade que, ao falar dos "pretos" e dos "ciganos", aligeira o tom, tentando camuflar o preconceito na cacofonia urbana. E olho de soslaio, quando um ser humano, de tez menos clara que a minha, passa por perto, ilustrando o tema da conversa, tantas vezes repetida: vivemos em lei marcial. É uma guerra de raças, cores, etnias, gerações, estratos sociais. É uma tempestade de preconceitos disfarçados. É um "melting pot" hipócrita, um mundo em que os brancos vestem FUBU e os pretos vestem Timberland, procurando uma identidade que se perdeu.
Sim. Eu sou racista. Quando vejo um grupo de gente que, racialmente, me é estranha, mudo para o outro lado da rua, sem que nada de racional mo indique. Quando um preto atravessa a passadeira no vermelho, é devido ao "excesso de melatonina na epiderme". Um chinês que trabalha laboriosamente? Anda a lavar dinheiro para as tríades.
Eles são os escarumbas, os ciganos, os monhés, os chinocas, os judeus. Querem limpar os guetos suburbanos? Comecem por eliminar os guetos mentais em que fomos colocando todos os seres humanos não euro-caucasianos.

Sinto-me incomodado pela presença maioritária de africanos, no autocarro que me transporta, todas as manhãs, de volta à minha universidade. Só os ciganos é que roubam, extorquem, chantageiam. Sim: eu sou um produto acabado do racismo polido e politicamente correcto. E tenho a certeza de que não estou sozinho.
Somos cidadãos do século XXI: mediatizados, cosmopolitizados, desenraizados.
As guerras, em África, só decorrem nos jornais e na televisão. Invenção jornalística, produto manufacturado em redacções de jornais sedentas de sangue. Genocídio? Conferência de Viena? Etnocentrismo? Nada. O racismo já faz parte de nós. Uma parte de mim marchou com os energúmenos de cabeça rapada que poluíram os Restauradores; uma parte de mim acreditou que 500 negros segregados participaram no Arrastão de Carcavelos.
As mesmas guerras, na Europa, são pequenos holocaustos. Menos na Albânia, que é islâmica. Menos no Kosovo, que também professa a fé em Muhammad. A tez branca, ao que parece (a mim também), sangra mais do que as outras.

Ainda noutro dia, fui assaltado. E eram dois brancos.

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