O Maio de 68 morreu.
Já não há Sorbonne sitiada. Agora, luta-se contra o CPE. Mas, em França, os ânimos andam sempre exaltados. Mesmo que o Muro tenha caído, as tendências Xiaopingianas tenham vencido, e a China seja, agora, um dragão industrial (que ainda funciona a carvão), eles continuam, todos revoltados e de punho no ar, a exigir aquilo que lhes apraz. Tanto trabalho...para quê? Mais vale ficar sentado numa certa esplanada de Lisboa. Pois claro. É melhor que sejam as vanguardas a determinar o pensamento de quem devia...bem....pensar. Ou, então, talvez seja preferível aderir a movimentos psitacistas e mentecaptos. Sempre é melhor que tomar consciência.
Sim, o Maio de 68 morreu. Vi-o hoje, com os meus olhos. Vi-o, ao enfrentar a apatia reinante numa certa Faculdade, a qual, ao que parece, cultiva o livre-pensamento e a discussão intelectual. Percebi-o, ao ter de esgrimir argumentos com uma cidadã, despreocupada e indolente, cuja única justificação para a apatia é, pelos vistos, um niilismo sensaborão, daqueles que se aprendem a ver os Morangos com Açúcar. O Mundo é, de facto, um Teatro.
E queres saber, caro leitor, a razão pela qual desci ao ponto de esgrimir argumentos com alguém cujo alcance intelectual não lhe deveria permitir a entrada na Universidade? Fi-lo para defender os direitos dela. Fi-lo porque, numa certa Faculdade, bastião incontestado da esquerda intelectual e bem-falante, o laxismo deixou de ser objecto teórico e passou a ser estado de espírito.
Porque ter de andar atrás dos meninos universitários, pedindo-lhes, encarecidamente, que participem na gestão da sua Faculdade, já que a sua participação é a última barreira que impede a comercialização da educação, e ainda levar com caras impúberes, mas já habilitadas à contorção muscular que dá lugar a um trejeito de enfado, não é, de todo, a minha noção de um bom dia. Só faltava andar a distribuir flyers e a colar cartazes com a frase "FAÇAM-ME UM INCOMENSURÁVEL FAVOR: DEFENDAM OS VOSSOS DIREITOS". Haja capacidade de encaixe.
É que, ao que parece, participar no Órgão Máximo de Gestão da Faculdade, onde estudam, é uma actividade de pouco prestígio e muito trabalho.
...Três reuniões por ano. Ordens de trabalhos com dois pontos. Uma frequência, por parte dos alunos, que rondou, no ano transacto, 10% dos representantes.
"Dá tanto trabalho... Participar no processo democrático dá imenso trabalho, é uma maçada tão chata, tão pouco Geração Y. Quase nem dá tempo de ir comprar os óculos aviador da RayBan. Imagina só perder os Morangos com Açúcar...Como é que decorávamos os tiques linguísticos que nos dão uma aura de Ignorantes-Cool? Ah não. Não pode ser. Deixamos essa coisa de participação cívica e consciência individual para ti, humilde e mal vestido plebeu". Juro que os olhos daquela cantina, daquele bar e daquela esplanada debitaram estas mesmas palavras, enquanto me ouviam falar de uma certa Assembleia de Representantes de uma certa Faculdade.
Enquanto estudante de História (dois pecados mortais numa única palavra - voltarei a este tema), não deveria, nunca, traçar paralelos, mas parece que, nesta sociedade mediática, só com alarmismos esganiçados é que lá vamos: lembram-se da Belle Époque? Melhor, lembram-se dos Roaring 20's? Pois. Viu-se no que deu. (Claro que reconheço a idiocia deste paralelo (instrumento analítico que, em História, é perfeitamente absurdo), mas mesmo assim, é engraçado)
"Pouvoir à l'Imagination", bradavam os revoltados de há trinta e oito anos. Hoje, alguns são como o Cohn-Bendit, institucionalizados; outros são apenas frustrados reaccionários ou revolucionários, todos muito radicais e muito pós-modernos. Mas há pior do que ser institucionalizado ou frustrado. Muito pior que isso é ser apático. A ignorância não traz felicidade; consagra, apenas, a ilusão do escape. E, mesmo que se convoquem manifestações, boicotes e acções de protesto, há gente que nunca chegará a ter consciência.
Um slogan para vocês, carneiros indigentes: Se pensas por ti, pensas mal. Em vez de pensares, tens de ser igual. (E sim, trata-se de uma referência a um dichote de mau gosto; mas o mau gosto, às vezes, surte efeito) A quê? À manada de amibas cerebral e socialmente atrofiadas que, todos os anos, saem, às pazadas, das Universidades portuguesas, esperando um emprego e uma vida onde a iniquidade dá lucro e a vulgaridade é a bitola do sucesso. Claro que o mundo, essa meta-realidade (para Jean Baudrillard, ou a minha interpretação dele), acaba por dar-lhes uma desilusão imensa; para bem de nós, que escolhemos o desconforto da consciência e da empatia, ainda vale a pena saber que o mundo é multitexturado, multicolor e multitudo.
Elitização do Ensino Universitário? Cá para mim, é Estupidificação do Ensino Universitário. Quantos mais burros, analfabetos funcionais - estarrece-me, profundamente, a iliteracia de alunos inscritos em Letras e Ciências Sociais - e inconscientes formos, mais tenrinha a nossa carne se torna. É que, sabem, o cérebro que pensa é duro de roer. O que não pensa é de digestão fácil.
Ao contrário do que pode parecer, não estou revoltado. Longe disso. Creio, porque conheço pessoas de muitíssimo valor, que querem saber, que procuram algo mais que um canudo e uma vidinha tranquila e apagada, que a minha Faculdade é, de facto, um bastião da pluralidade e do livre-pensamento. Benditos sejam. Aos outros: até podia dizer-vos onde fica a fila para a máquina de encher chouriços, mas vocês já lá estão. E não tenho pena nenhuma.
6 de novembro de 2006
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
2 comentários:
Da Crítica ao Amorfismo Especializado...
Caro Mal Desenhado,
Muito me apraz verificar que não estou sozinha neste Teatro-Mundi que glorifica o amorfismo generalizado mas, principalmente, o amorfismo especializado.
É com extrema relutância que perspectivo um futuro para o Ensino Universitário português, que deveria ter como apanágio a qualidade, a intervenção e a promoção do espírito crítico (agora já mitificado...).
O Maio de 68 acabou. Onde está a velha Sorbonne???
Um abraço solidário, menos solitário.
"A ignorância não traz felicidade; consagra, apenas, a ilusão do escape" ... e o que é a felicidade? senão um mero escape da realidade?...
Fora de brincadeiras, com as palavras ... é pena que a apatia seja o poder reinante neste país...
FORÇ'AÍ!
js de http://politicatsf.blogs.sapo.pt
Enviar um comentário