31 de janeiro de 2007

O Outro

Quem és tu, estranho? Quem és, alma penada? És uma projecção lugúbre dos meus preconceitos? Por que razão falas nesse linguajar idiota? És amarelo, agora és preto, tornas-te, de repente, vermelho. És sempre um silencioso escravo das minhas definições, da minha ocidentalidade imperialista. Não te podes defender das minhas chicotadas, eu sou o teu carrasco, o teu escultor, o agente da tua perda. Arrancar-te-ei os olhos, tirar-te-ei a individualidade que jamais tiveste. És um selvagem, maltrapilho incivilizado e rústico. Apenas consegues perviver na memória do exótico, como uma aberração demasiado próxima. Tu não choras nem ris, és um farrapo de rocha insubstante. A tua cultura é o meu campo de batalha. A tua linguagem primitiva é o tijolo com que ergo o mausoléu da tua morte. Espera. Não. Tu nunca chegaste a nascer. Não tens religião, és um sinal ortográfico insignificante, na minha marcha imperial, rumo às trevas do progresso. Pisoteio os teus rituais com a minha peripatetice, porque as tuas categorias mentais nem sequer conseguem defender-se. Quem és tu, que és tu, o que serias tu, triste sombra? Vagueias, nomádico, serpenteante, sem passado, presente ou futuro, sempiterno poluidor do logos. Qual é a tua razão? Define-te. Ou és uma verdade ou és uma fúria. Não, espera. És apenas uma projecção. És somente as pulsões maléficas, tanáticas, quiméricas, de que desistimos há tempos que tentamos esquecer. Tu és o que nós fomos. És, nunca foste nem serás. E, por isso, violo-te com o meu olhar esfacelador.

1 comentário:

Anónimo disse...

olá

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todos os dias falamos de um filme diferente

paula e rui lima